Há um jovem paulista do interior com dois sobrenomes bem brasileiros: Silva e Santos. Seu nome é Neymar, homenagem ao pai, ex-jogador, sem fama. Neymar ainda vai fazer vinte no princípio de 2012, mas ganha por mês mais que cinquenta ministros, juízes ou auditores da Receita Federal. Sua figura magra é encimada por cabelos cortados a Moicanos, tribo indígena norte-americana nômade que talvez ele nem saiba ter existido. O fato é que ao abrir a revista brasileira de maior circulação, edição desta semana, vi três páginas de propaganda usando a sua imagem. Fazia publicidade de cuecas, meias e de um serviço móvel de telefone. A agência espalha que dia 22 próximo, segunda, Neymar aparecerá de cuecas nas propagandas. A dos telefones, usa também a imagem do Neymar-pai e coloca o Neymar-filho como “futuro-pai”. Na realidade, Neymar deverá ser pai, mas não porque desejasse sê-lo. Sê-lo-á por exuberância de sua testosterona e o explícito compartilhamento/oferecimento de uma maria-chuteira com quem não tinha laços afetivos. Daí a explorar a sua imagem no Dia dos Pais vai um oportunismo cretino. Saio da revista, abro um jornal paulistano e vejo notícias da festa de outro jovem atleta de futebol, Lucas, que comemora 19 anos. Tudo patrocinado pela agência do Ronaldo, o fenômeno, e uma empresa de artigos esportivos. Na portaria, há lista dos convidados. Há a lista do aniversariante, lógico, mas há também a “lista do Neymar”. Esta lista é composta de novos-amigos e de “bonitonas”, loucas para aparecer, a custo de tudo. Neymar chega de touca preta, camiseta preta, camisa social aberta com listras rosa e branca, brinco fulgurante na orelha direita, crucifixo exposto de igual quilate e óculos escuros às mãos. Falam/brincam/sorriem que Neymar distribuirá 300 camisinhas, pois sabe o que já aconteceu com ele. A balada começa, tudo de graça. O DJ (o animador) aumenta a rotação sua pick-up(som) e todos entram na geleia geral da noite. Lá fora, moças de vestidos colados ao corpo, saídas da malhação e sapatos altíssimos lutam pela oportunidade de entrar. A Hostess (a que cuida das listas) resmunga, mas sempre aparece um “amigo dos amigos dos amigos”. E os seguranças-guarda-roupas, de preto, abrem a porta do paraíso, que se chama, por coincidência, Royal, de real, rei, majestade. É madrugada de domingo para segunda, o treino será logo à tarde, mas quem se lembra dessa chatice. E o futuro, que não dorme e não usa touca, fica do lado de fora da porta, à espreita, lembrando o que dizia Victor Hugo, escritor francês: “O futuro, fantasma de mãos vazias,/que tudo promete e nada possui”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/08/2011.

