PEQUENA VOLTA AO MUNDO – Jornal O Estado

Este ano de 2011, dez anos depois do 11 de setembro que fez profundos estragos na defesa e autoestima norte americana, tem sido devastador para os políticos e países, de modo geral. Não falo apenas do que se chamou, desde logo, de primavera árabe. O ano possui 4 estações, lembro. Pondero acerca do que nos chega pela televisão aberta e de assinantes, jornais, revistas, sites e blogs. O que vou narrar é conhecido. Foi exposto à exaustão. Aproveito a didática do sociólogo Ricardo Antunes para ir passando de país a país e/ou de continente a continente. De princípio, a dita Primavera surge na Tunísia, em meio a sindicalistas e revolta popular. Derruba a ditadura de Ben Ali. Brotam flores. A civilização egípcia, com seus ricos museus, as pirâmides Quéops, Quefren e Miquerinos, sob a vista da estátua de Gisé, vê as águas do Nilo banhadas por sanha indomável que fez praça em Tahir e conseguiu a queda de Osni Mubarak. Hoje, réu e doente. Depois, como vendaval, o tempo foi fechando para os governantes da Jordânia, Argélia e Síria. No fim de agosto, cai na Líbia, Gadafi com toda a riqueza explícita de seus vários palácios, jato Air-Bus personalizado com camarinha de luxo, enquanto a pobreza do país é gritante. Ao mesmo tempo, mulheres árabes são presas em vários países por defenderem o prosaico direito de dirigir automóvel e por “traição” a seus maridos que têm tantas mulheres quantas puderem sustentar. Saíamos do mundo árabe e nos instalemos nos Estados Unidos, a Inglaterra de ontem.
Obama sofreu todas as humilhações que o conservador Partido Republicano, por sua ala mais aguerrida e cronologicamente jovem – o atrasado “Tea Party” – conseguiu aplicar no Congresso. Agora, os EEUU estão engessados em sua monumental dívida. Aparece até um terremoto com epicentro na Virgínia, arredores de Washington. Wall Street provoca a queda das bolsas de todo o mundo. 2008 voltou ou continua? Militares americanos vão saindo do Iraque e o país sofre com o “Irene”, o furacão em sua costa nordeste, com prejuízo de bilhões de dólares. Descendo um pouquinho, entramos em Cuba e temos notícia de que Fidel Castro está prestes a sucumbir ao tempo que o consome, fisicamente. “Patria o Muerte”. Não mais ouviremos, por enquanto, os longos discursos de Hugo Chávez, o homem das bravatas na Venezuela petrolífera. Ele luta, de forma pública, contra câncer em sua região pélvica. Lula viaja a países latinos como “speaker” e defende interesses de grandes empresas brasileiras de construção civil que se implantaram em toda a América do Sul para fazer estradas, portos, siderúrgicas, oleodutos e que tais. No Chile, o rico presidente Piñeda, vê a sua aprovação popular cair na casa dos 26%. Greves, patrocinadas por estudantes e centrais sindicais paralisam o país, em pleno inverno. Cristina Kirchner carrega na maquiagem e se prepara para novo mandato na Argentina, o país que foi referência. No Brasil, jornais fazem o papel de oposição e conseguem, após denúncias, a demissão de quatro ministros. Enquanto isso, a deputada Jaqueline Roriz – filmada recebendo propina – é inocentada pela Câmara dos Deputados. Colegas.
Descobre-se o óbvio: político adora viajar de “jatinhos”, preferencialmente sem pagar. Dilma Rousseff ainda é parábola e, todas as noites, conversa – em voz baixa – com a mãe e a tia, pessoas em que pode confiar. Voejemos pelo oceano Atlântico e empaquemos no continente africano: quase dizimado por guerras civis, fome endógena, doenças endêmicas e a Aids com seus perigos. Abandonemos os países africanos, por enquanto. Deixemo-los cuidando de guerras tribais, despotismo, corrupção, dívidas – inclusive às da Copa do Mundo – e a incursão europeia, americana e chinesa em suas riquezas naturais. Vizinha à África, separada apenas pelo Estreito de Gibraltar, a Europa é fustigada. O sonho do Euro, como moeda comum, custa caro a países como Portugal, Espanha, Itália e outros menores.
A conta está para ser paga, o desemprego cresce. Há xenofobia na Velha Albion, a que esnobou o Euro. Viu-se fumegante em Londres, Tottenham, Manchester e Liverpool. Surge a ideia da criação dos “Estados Unidos da Europa”. Ainda não falei da Índia, com greve de fome do pacifista Anna Hazare, presumível novo Ghandi, “que morrerá contra a corrupção”. Cansei, paremos por aqui. Estamos em setembro, faltam quatro meses para o 2012. Que chegue logo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/09/2011.

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