O TELEFONE TOCA – Diário do Nordeste

O telefone toca. Não atendo. Toca, novamente. Alô. Reclamações de uma mãe. Ouço tudo. É um desabafo forte, sofrido e abusado. A filha dela mudou o compasso. Não entra em contato com parentes. O que lhe causava pejo parece ter, aparentemente, modificado. Encastela-se no seu mutismo e não ouve ninguém. Acredita-se capaz de tocar a sua vida, sem palpites e destemor. A vida não é idílio. Vidas têm borrões inapagáveis e não dá direito a pausas, replays ou o uso de corretivos. Vida é trânsito, direto. Vida é construção em caderno de folhas a serem escrevinhadas – riscadas, sublinhadas, emendadas – apenas a cada dia. Quando a página vira, virou.
Os dias precisam ser conjugados com temperança ou destemor, amor e trabalho. É claro que o instinto vale, mas há que se lançar para viver, mesmo que se trombe, caia, o humor mude, vacile ou desacerte o passo. A pitada de alegria que dá o condimento do viver tem que ser aditada à água grande que é a realidade fática. Dizia Sêneca, mais de 2.000 anos passados, que vida sem meta é vagabundagem. Veja o original latino: “Vita sine propósito vaga est”.
Não posso fazer ou querer dizer o propósito alheio, cada qual tem que pisar o seu inferno ou paraíso. Ouvir harpas celestiais ou o ranger de dentes. Falei que a vida é construção. Como se pode construir se o terreno é alheio. Cada um que capine a sua terra, revolva, tire os escolhos, regue, adube e faça crescer o que bem plantar. Não importa se é um mero lote, alqueire, hectare ou sesmaria. Você é o seu arado, acione-se, caleje as mãos, de sol a sol. Como colher frutos se não escolher boas sementes, semeaduras corretas, regar e cuidar? Cada um escolhe o que colocar em seu terreiro, na sua cama, mesa ou sua sala.
Estarei filosofando ou dizendo impropriedades? Não importa. O que tento é analisar o fato que me foi passado, com tristeza. As perdas e ganhos são pessoais, não os transferimos por palavras escritas, tampouco por falas não escutadas. Alguns não vêem o que lhes é mostrado, explicado e ponderado. Paciência, cada um que cuide de seus calos, torcicolos, bolsos e mentes. Será chegada o tempo de se saber o não revelado. E aí poderá vir o momento de ser relevado. Ou não.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/10/2011

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