Em 26 de outubro de 2007 escrevi, neste jornal O Estado, o artigo “Argentina, Cristina”. Faltavam dois dias para a eleição presidencial. Havia voltado de lá, conversara e ouvira que a mulher de Néstor Kirchner seria eleita. Em certa parte do meu texto, dizia: “Assim, a partir de segunda, o país vizinho que oscila entre a alegria com que encara o futebol e a amargura com que se deixa dominar pelo dramático compasso do tango e pelas tragédias pessoais, amanhece com a mesma face e isso já pode ser dito, pois Néstor e Cristina formam uma dobradinha e governam juntos, sem nenhum preconceito. A grande maioria dos argentinos encara a eleição com indiferença”.
Como previsto, Cristina foi eleita e começou a dirigir, em comunhão de atos, com o seu marido, Néstor. Acontece que a tragédia, não a grega, mas a portenha, faz parte da essência argentina. Em 27 de outubro passado, Néstor morre de infarto inesperado. Velórios pungentes em Rio Gallegos, província de Santa Cruz, sua primitiva base eleitoral, e em Buenos Aires, onde se federalizaram. Cristina adorna-se de preto, aumenta os cílios, potencializa a biografia de seu marido, esquece seus erros e dá toques escuros ao vermelho de sua longa cabeleira. Sua imagem cresce ao sabor da economia.
Dispara dardos contra o grupo detentor do jornal “El Clarín”, fecha-se na Casa Rosada com poucos amigos e assessores e disputa as prévias, uma inovação no processo eleitoral de lá. Sai fácil na frente com mais intenções de votos que todos os outros candidatos. Agora, completa um ano de seu luto. Seu filho Máximo, 34 anos, cria o movimento social esquerdista “La Cámpora”, para perpetuar o kirchernerismo – ou seria o “Cristinazo”? -, tudo com o tempero do velho peronismo.
Domingo passado, 23 de outubro, Cristina foi reeleita. Vai recomeçar com um país mais fortalecido, tal como o Brasil, vendedor de commodities, como a soja e o trigo. Midiática, apenas sorri com a postura de viúva antiga, na maturidade dos seus 58 anos.
Seu vice-presidente é Amado Boudou, 48 anos, economista, empresário, ex-ministro da economia, jovial e amante de rock. Fala-se, desde já, em reforma constitucional para um terceiro mandato, mas há a sombra da crise econômica a rondar o mundo e a formar seguidos estoques de veículos lá fabricados, 80% dos quais são vendidos a um pais, com o qual tem trânsito e diferenças antigas, dirigido por outra mulher, Dilma. Lá, como aqui, a nova história começou em 2003.
Todos estes assuntos foram discutidos esta semana sob o tema “Argentina Hoy”, por Carlos La Rocca, assessorado por Carlos La Rocca Jr., na abertura de seminário em que a Sociedade Consular do Ceará realiza. A ideia é aprofundar estudos sobre cada país que possua representação consular no Ceará.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/10/2011

