DEFINIÇÕES – Diário do Nordeste

Ela é cearense, mãe, avó e pintora renomada de alma e saber grandes. No seu dia a dia, em recanto bonito de sua casa misturado com árvores acolhedoras, livros a mancheia, lidos e mexidos, quadros dos outros e seus com frases contidas/insertas e bem certas, instalações e adornos pendurados, ela dá aulas a pessoas escolhidas que querem aprender a pintar ou usam o tempo e os pincéis como terapia para os desalentos da vida.
Desde que a irmã se encantou, para tristeza verdadeira de nós, os poucos, em um começo de junho do último ano findado em quatro do século morto, passamos a conversar de forma aleatória, mas sempre. Amigos. Poucas vezes ao vivo, pois mora na cidade das pontes e dos dois rios. A de João Cabral de Melo Neto, o poeta do menos, adotada por Ariano, o menestrel suassunense armorial. Poucas vezes pelo fio, mesmo sem fio, pois há tarefas a cumprir nos duplos horários descompassados. Trocamos e-mails.
Ela me incita a entrar no Facebook, mas não aceito. Esse mundo virtual nada virtuoso. Somos expostos e fazem de nós o que querem. Editam, mexem no texto e contexto plantando coisas não ditas e sem raízes/razão. Agora, em resposta a uma provocação minha, manda-me algumas definições de aluna sua. Pelas definições, você verá que as aulas não constam meramente de pincéis, cavaletes e tintas. A arte, como ela faz, transcende a cromatologia, as duas dimensões e apoderando-se da filosofia não fica aprisionada nas dimensões da tela. Surrealista? Mais que isso.
Assim, surgem iluminuras nas conversas misturadas com café, avental sujo e a volatilidade da fumaça expandida após o trago profundo. Veja, com atenção, o que uma sua aluna acredita ser quietude: “tento fazer daquilo que não tem som, o ruído de mim mesma”. Sobre a enigmática e portuguesa palavra saudade, ela pinta: “a viagem que o meu coração faz não tem final”. Quem sabe, triste, define a passagem da esperança: “só quero um dia me lembrar do lugar por onde nunca passei”. Contemporânea – paradoxalmente romântica – incorrigível arremata: “sofrer por amar não tem século”. E como os outros, filósofos ou artistas, conclui: “Ilusão, tu me abortas”. Ainda há salvação no mundo, pensar é o caminho. Badida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/10/2011

Sem categoria