Ocupar é verbo transitivo direto da 1ª. conjugação e seu uso, em outras línguas, não é de agora. A ocupação é antiga. Os romanos estavam na Judéia quando Cristo foi preso. Acreditavam ser ele ativista político e não líder religioso. Em rápidas e frágeis pinceladas: espanhóis e portugueses descobriram as Américas e delas fizeram o que quiseram, por séculos. França, Holanda e Inglaterra pintaram e bordaram na África. A Inglaterra ocupou a Índia. Árabes permaneceram na península ibérica por séculos. Napoleão, o conquistador francês, só foi vencido pelo inverno russo, em 1812, parecendo dizer: desocupe nossa terra. Alemães atravancaram quase a Europa inteira nos fins dos 30 e metade dos anos 40 do Vinte.
Aqui no Brasil, a coisa é, quiçá, mais simples: colocando o “zoom” no Brasil dos fins do século 20 e neste começo do 21, temos a figura do MST, Movimento dos Sem Terra, ocupando fazendas, versão pós-moderna do que desejava Chico Julião, no começo dos 60, com as “Ligas Camponesas”. Neste novembro, estudantes da USP ocuparam parte daquela universidade sob o pretexto de o campus ser território livre e poder-se, ali, fumar o que quiser. Falavam, sem saber, das favelas cariocas. Ali, a ocupação, começou em 1897, por ex-soldados desvalidos voltando da Guerra dos Canudos, após matar o nosso Antônio Conselheiro. Povoaram o Morro da Providência. Deu no que se sabe.
Hoje em dia, a onda grassa entre camelôs que já não se conformam em atuar como ambulantes. Sitiam praças, ruas e átrios de igrejas. Do outro lado da Terra, a queda da ditadura egípcia de Hosni Mubarak, no brotar da Primavera Árabe, começou com a ocupação da praça Tahir pelos jovens. Agora, meses depois, caiu o governo militar tampão egípcio com protestos na mesma praça. A esfinge de Gisé observa tudo.
Nos Estados Unidos, jovens de credos, raças e rendas desiguais, ocupam, há meses, a mini-praça Zucotti, próxima da Wall Street. Como sabem, a rua Wall fica na parte mais baixa do distrito de Manhatann, em NY. Imigrantes judeus holandeses ocupavam a área em 1615 e ergueram,em 1652, um muro (wall) para proteger a vila e os seus negócios. A área é nanica, mas reúne hoje – em ruas estreitas e sinuosas -altos edifícios de bancos e entidades financeiras que, até bem pouco, eram fortes.
Além da Grande Depressão de 1929, houve em 1987, no dia 19 de outubro, a Segunda-feira Negra, com a desvalorização alucinante das ações da Bolsa de Nova Iorque. Depois, em 11 de setembro de 2001, aconteceu o atentado às Torres Gêmeas que representavam o poderio da área. O problema econômico mundial causado pelos bancos e governos em 2008 ora se agrava. A Europa sofre.
O movimento “Ocupe Wall Street” já está em dezenas de cidades americanas e tende a crescer, mesmo com a repressão policial. Nesta penúltima semana de novembro de 2011, uma péssima notícia. A Super Comissão formada por 12 integrantes do Congresso americano, dos partidos Democrata e Republicano, não chegou a um acordo para o pacote fiscal que pudesse tirar o país da confusão econômica. Assim, os Estados Unidos, ficam mais vulneráveis.
Nessas ocupações e notícias atuais, de naturezas tão distintas quantos seus objetivos, não há quase mais nada de ideologia em jogo, parece mais um espasmo neste mundo desigual e desgovernado que caiu no fosso criado pelo “circo da ambição” de que falava o escritor John Taylor, em livro homônimo, em 1993.
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO Jornal O Estado EM 25/11/2011.

