KARL MARX, O HOMEM – Jornal O Estado

Já disse neste espaço ter procurado conhecer a casa onde nasceu Karl Marx, em 1818, em Trier, Alemanha, rincão da minha colega Elfriede Reinhilde. Não tive informação correta e acabei me contentando com a foto. Era domingo, havia festa na cidade molhada pela chuva e atulhada de carros.
Marx era de família judia convertida, obrigatoriamente, ao cristianismo quando ele tinha seis anos. Saiu cedo de Trier e foi para Bonn e Berlim, onde estudou direito. Aos 19, em 1837, mandou ao seu pai, Heinrich, um punhado de poemas seus e partes da novela humorística “Escorpião e Félix”. Seu pai morreria seis meses depois e Marx não foi ao enterro. Tinha mais o que fazer, segundo relato de Bernardo Carvalho, autor de longo e belo ensaio, embasado por vários críticos, para o caderno “Ilustríssima”, de 23 de janeiro de 2011, que contém a tradução integral de o “Escorpião e Félix”.
Nesse tempo, 1837, já havia conhecido sua futura mulher, Jenny von Westphalen, filha um de barão prussiano, com quem casou e teve cinco filhos. Carvalho faz crer que o imberbe candidato a ficcionista não teria obtido sucesso, se persistisse no ofício. Então, depois de viver, estudar, mudar o rumo para a filosofia e professar na França e Bélgica, o já filósofo consagrado lança o Manifesto Comunista, em 1848, em parceria com Friedrich Engels. E, perseguido, passa a viver em Londres, onde morreria 34 anos depois.
Esta introdução é para dizer que um amigo enviou-me vídeo seu em que espinafra o inspirador do comunismo. Explico: Ele foi até ao cemitério de Highgate, em Londres, ver o túmulo de granito de Marx, erigido apenas em 1954, pelo Partido Comunista Inglês, encimado por seu busto e a célebre frase: “Comunistas de todo o mundo, uni-vos”. No vídeo, ele externa sua revolta com o filósofo alemão. Na verdade, Marx morreu de tristeza, consternação, solidão, carente e apátrida, em 1883, após a morte da mulher Jenny, em 1881.
No meu olhar o homem Marx era amargurado com o seu fracasso financeiro. Vivia aborrecido por não dar uma boa condição de vida à Jenny, cuja família tinha posses e largara tudo por ele. Jenny sofreu sucessivas crises de depressão e ele tratava as duas filhas – três filhos morreram na infância – sobreviventes de forma rígida, obrigando-as a estudar canto e piano e lhes exigia que só casassem com pessoas de posses. Essa contradição pequeno burguesa se agravou mais ainda com o constrangimento geral ao ter um filho espúrio com a doméstica de sua própria casa, Helen Demuth. Para sanar ou minimizar o problema, Engels assumiu a paternidade e deu o até o nome próprio Friedrich ao filho não perfilhado pelo companheiro. Ademais, por necessidade, Marx escreveu, após o Manifesto, para jornais de língua inglesa, inclusive o New Yorky Daily Tribune, durante bastante tempo. Marx mesmo revelava que “o homem faz a sua própria história, mas não o faz como quer…”. Por fim, o insuspeito filósofo marxista brasileiro Leandro Konder pondera: “Antes de poder contestar a sociedade capitalista Marx pertencia a ela, estava espiritualmente mais enraizado no solo de sua cultura do que admitia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/12/2011.

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