O que significa personalidade? O que sei é pouco. Seria um conceito psicológico a mostrar padrões de comportamento de alguém? Quem sabe, a capacidade de tomar decisões configuradas em atitudes, tendências, valores e sentimentos? Dito isto, é bom lembrar que no percorrer dos dias finais do ano, entidades, jornais, revistas, colegiados, mídias sociais e assemelhados, escolhem, segundo seus critérios, personalidades destaques em seus fazeres.
A revista “Time”, dos Estados Unidos, tenta fugir da individualização. Em 2006, escolheu “Você” para a personalidade do ano. Você é qualquer internauta comum ou ilustrado. Você é pessoa indefinida no meio de todos. Agora, neste 2011, a “Time” designa “O Manifestante” (The Protester) como a personalidade mundial. Seria a ausência de líderes verdadeiros? Sua capa em cores traz uma mulher árabe usando touca com a boca coberta por um trapo de pano. A legenda diz “Da Primavera Árabe a Atenas, do Ocupem Wall Street a Moscou”. O(a) manifestante, seja quem for, também é você, onde quer que more, insatisfeito com o que vê, sente e o agride.
Esse manifestante não é só o egípcio Ahmed Haara que perdeu os olhos acantonado na Praça Tahrir, no Cairo, dando início à derrubada de Bumarak e de outros ditadores árabes. Tampouco o tunisiano Mohammed Bonazizi que ateou fogo ao próprio corpo e não viu o ditador Bem Ali ser destituído. Seria Rey Lewis, capitão aposentado da Polícia, que achou gloriosa a sua prisão no “Ocupem Wall Street”, onde, ao lado, estão banqueiros manipuladores ou o mexicano Javier Sicília que perdeu um filho para os traficantes de drogas? Não. A personalidade do ano é o somatório de todos os que se revoltam contra os desgovernos, a corrupção, o tráfico de droga, as guerras fabricadas, a cobiça pelo petróleo, a discriminação de gêneros, credos, raças e os que não conseguem empregos na orbe dos nababos a derrubar mercados e a fomentar crises em cadeia. A Ásia detona, a Rússia geme, a Europa esperneia, os EEUU emudecem e o mundo, aturdido, vê na pessoa comum, talvez sem ideologia, crença ou partido, sinais vivos de que pensa, conclui e protesta: basta de desmantelo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/12/2011.

