CONCURSOS E VIDA – Diário do Nordeste

É grande o número de jovens que, ao concluir os estudos, seja de nível médio ou superior, se lança na luta para passar em concursos públicos. Não é raro se ouvir: “estou estudando para concursos”. Não importa qual seja. Certamente, a carreira de funcionário público é um dos caminhos para milhões de jovens – e de não jovens – que não conseguem ou perderam a ocupação em empresas privadas ou, simplesmente, optaram por ser “concurseiros”. Acontece que os concursos oferecem milhares de vagas e, todos os anos, milhões de jovens adultos procuram trabalho. Um exemplo: um concurso recente oferece 159 vagas e mais de 6.000 as disputam. Os que não forem aprovados terão sentimento de frustração e, quase sempre, serão cobrados por suas famílias. Enquanto isso, o tempo passa e mais gente entra ano a ano na disputa por um número menor de vagas. Essas pessoas precisam ter foco. Ter foco é saber o que se deseja na vida. A competição é uma espécie de seleção natural fazendo a sua parte. Por capacidade ou sorte cada um faz sua estrada. Assim, anos da fase mais produtiva são gastos em aulas que consistem em aprender a entender ou decorar matérias e assimilar dicas ou “bizus”. É provável estar cometendo equívocos nesta análise rápida. Acontece que a vida não é um bálsamo. Ela é uma constante e infinda luta entre desejos, capacidade e a realidade que nos cobra atitudes. Há alternativas outras, além dos empregos públicos e privados. Veja as suas habilidades, sua formação escolar, o seu “jeito” para fazer determinadas tarefas. Vá à luta. Revi, recentemente, o filme “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de Almodóvar. Nele aparece um motorista de táxi que, além da corrida, vende aos passageiros: jornais, revistas, cigarros e coisas mais. Assim, tinha uma renda adicional. Imagine que alguém tenha 500 reais. Pode, por exemplo, iniciar um micro negócio de frutas. Comprar na Ceasa e vender na sua rua, no prédio, no bairro. Venda porta a porta. Lucro diário. Há oportunidades simples à espera de pessoas com garra. Nada é humilhante. A dignidade é saber-se capaz de fazer algo lícito, produtivo e que lhe dê sustento e prazer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/01/2010.

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