A PAZ DO SENHOR – Diário do Nordeste

As igrejas sempre abrem as suas portas para todos. Agora, nestes tempos, costumam, quase sempre, fechá-las com fortes trancas. Vivemos num templo de violência, o horror nas páginas dos jornais, das rádios e nos noticiários sangrentos da televisão. As igrejas, quando abertas, por seus padres ou pastores, sempre nos desejam a paz do Senhor. E ao sairmos para a rua, nua e crua, desponta o nosso medo camuflado, arrebatando a fé procurada. Vemos-nos encurralados. O “flanelinha” pode ser ameaça. O motorista ao lado grita porque não lhes damos passagem na hora da sua buzina estridente. Vendedores de tudo nos abordam ou batem no vidro. Passamos do humor natural para o receio, levados pelos crimes acontecidos, sabidos e comentados dia e noite, de todas as formas. Não vivemos mais em cidades livres, triunfantes em suas alegrias notívagas, etílicas ou futebolísticas, mas entre ameaças nos esgueiramos. Cada habitante parece um refugiado à procura da saída. Casas e edifícios viraram “bunkers” com cercas protetoras, grades em portas e janelas, interfones roufenhos, cães a latir, vigias armados no alto de torres e alarmes prontos para o inesperado. Estamos, cada um de nós, protagonizando – sem saber – cenas de um filme tipo “Os fracos não têm vez”, romance escrito com gosto de sangue por Cormac McCarthy, que virou celulóide nas mãos de Ethan e Joel Cohen. Tão violento que ganhou um “Oscar”. Mas, aqui não é a Hollywood da ficção. É o mundo real em que crianças são mortas em matagais, gangues enfrentam policiais, sequestram-se menores em colégios, empresas de segurança prosperam, assaltam-se bancos semanalmente, fuma-se crack de cócoras à vista de todos, prostitutas e travestis enfrentam as noites das ruas municiados de armas contra maus clientes e adolescentes “alugados” cometem crimes. Em todas as horas, carros são roubados/furtados, assaltos se repetem como o quebrar das ondas. Somos todos personagens da história da cidade em que vivemos do jeito que podemos e não nos alegram essas lembranças reais e duras do dia a dia que parecem um manto a nos cobrir não como proteção, mas como a tenda de um circo de horrores. Até quando?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/2010.

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