Ver a terra do mar é sempre luminoso. Somos e não somos. Pertencemos ou não? Esta semana estive em um veleiro. E o que faz um grande veleiro em mares brasileiros neste ano de 2010? Ele singra as águas do continente americano para dizer da alegria dos que há 200 anos se libertaram do jugo espanhol e criaram, nesta banda da Terra, uma identidade própria, peculiar, multicultural e racial. Octávio Paz advertia que o contador de história tem visões como poeta, daí olho o veleiro Cuauhtémoc e lembro da poeta mexicana Margarita Paz Paredes quando diz em seu poema Busca: “Veio depois às minhas famintas praias e era um peixe rutilante em minhas redes de assombro. Mas sobre a areia desmanchou-se-lhe a estranha pele de azougue”. O México, como o Brasil, é um país derramado em verso e prosa. O México é também um país fustigado pelas guerras, mas teima em viver em paz. A palavra Cuauhtémoc refere-se a um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria azteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes. Assim, o belo veleiro Cuauhtémoc é a águia-proa do México a tocar em missão pacífica os mares e portos do mundo para falar da latinidade que nos é comum. Veio em cruzeiro de instrução da Armada do México, com 246 tripulantes, sob o timão firme do Comandante José Francisco González Galindo, e já aportou, nesta viagem, em Balboa (Panamá) e Barranquilla (Colômbia), Fortaleza e Rio de Janeiro, no Brasil, de onde seguirá para cidades argentinas, uruguaias, chilenas, venezuelanas e dominicanas, até chegar a Vera Cruz, no México, em 23 de julho próximo. Que suas brancas velas amantes do vento se enfunem com os ares brasileiros e leve a nossa maresia e algas como um toque de amizade em seu casco. Como dizia o meu parente pelo lado materno, Pero Vaz de Caminha: “E Deus que aqui nos trouxe, alguma razão tinha para isso”.
João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/2010

