SÃO JOSÉ, A IGREJA E AS CHUVAS – Jornal O Estado

A Igreja Católica tem certos paradoxos, dogmas ou dilemas difíceis de serem entendidos por mim. A fé seria a resposta. Há uma pequena frase atribuída a Santo Agostinho, mas que é de origem desconhecida: “Creio por ser absurdo” (Credo quia absurdum). São Paulo, na epístola aos Hebreus, XI, 1, dizia: “A fé é a substância das coisas esperadas, e o argumento de coisas que não se veem”. Einstein, judeu e cientista, falava que a “A ciência sem a religião é manca, a religião sem ciência é cega.” Assim, qual a razão de Maria, mãe de Jesus, ser tão celebrada, reverenciada e amada e de José, seu marido – com quem não coabitara, mas assumiu a paternidade de Jesus – ser tão pouco festejado? Hoje, 19 de março, é o dia escolhido para homenageá-lo. Ele, São José, é o padroeiro do Ceará, terra tão desértica quanto à região da Palestina/Israel onde, segundo a História, habitaram Maria, Jesus e José. O Ceará ainda é uma terra de Josés, os que acreditam na redenção que virá das águas das chuvas ou dos rios, do plantio de subsistência e da precária escola frequentada por seus filhos, para não serem tão pobres quanto eles. Voltando ao fio da meada: Dessa forma, a Igreja assumiu uma face mariana, a divulgação pelo Novo Evangelho de que uma mulher pura teve um filho concebido sem pecado pelo Espírito Santo. José, na sua visão de velho carpinteiro, não entendeu a razão de Maria estar grávida, pois relação não houvera. Veio o sonho e lhe foi dito que aquilo era uma graça e obra do Espírito Santo. Por outro lado, na trindade cristã, há o Pai, mas o pai é Deus, o Senhor Absoluto, criador dos céus e da terra; há o Filho, Jesus, o enteado de José, e o Espírito Santo, o verbo. Como se vê, as figuras de Maria e José estão fora da santíssima trindade. Resumindo, a Igreja é mariana, romana e tem em São Pedro, o seu fundador. Pedro, o que negou a Cristo por três vezes, foi o disseminador da ideia que saiu de Nazaré e Belém e se transmudou para Roma, a sede da Santa Sé. Não quero confundir ninguém com estas digressões ligeiras, mas o que peço a São José, o esquecido, é que se lembre estarmos na passagem do equinócio, fenômeno em que o sol cruza o plano da linha do equador, quando os dias e as noites têm tempos iguais e caem as chuvas que tantos precisamos. É tempo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/03/2010

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