Li em jornal recente que caldo de cana pode causar a doença de Chagas. Na verdade, talvez não seja o caldo de cana, mas seu manejo primário, desde o plantio, possa transmitir a doença. Agora, há pouco, estava a esperar a abertura do semáforo, em trânsito bloqueado por carreta, enquanto um prosaico vendedor de caldo de cana tentava, na esquina movimentada, esmagar os já não suculentos bagos que produzem a sacarose tão apreciada. Olho para os detalhes do carro ambulante e vejo que, sobre uma precária estrutura de ferro, foi montada uma moageira acionada por pequeno motor a gasolina. Esse motor traciona uma correia a fazer girar os dentes serrilhados que produzem, por pressão, o esmagamento. Entre o chassis do carro, equilibrado sobre duas rodas e um suporte de ferro que forma um tripé e a “plataforma de vendas”, há um depósito onde repousam as canas cortadas. Alguém, certamente, falou em higiene para o vendedor. E, por conta disso, ele usava um par de luvas plásticas que serviam também para acionar o motor, que rateava, e fazia a correia deslizar. A mão direita foi ao encontro da correia, enquanto a esquerda segurava o copo descartável aguardando o sumo. Esse instantâneo relata a luta de pessoas que, em maioria, lutam de todas as formas para superar as exigências dos empregos formais a cobrar escolaridade e experiência. Ali, naquele carro ambulante, estava uma trindade: o homem de força que empurrara o carro da casa ao local escolhido para ponto de vendas, o mecânico a acionar, parar ou consertar o velho e adaptado motor e, enfim, o comerciante a vender e a receber, com as mesmas luvas, em moeda corrente, o produto de seu suor, o sumo da cana plantada por outro trabalhador igual a ele em terras do interior. Esta cena, só vista e repetida em países com grande nível de desigualdade, inclusive por conta do analfabetismo, mostra que, se houvesse um pouco mais de oportunidade e apoio público na formação escolar e treinamento, essa pessoa poderia ter se tornado bem maior. Sobram-lhe energia, independência, criatividade, capacidade de trabalho e boa índole, dicções básicas para o viver como gente.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2010.

