CLÉBER AQUINO – Jornal O Estado

Imaginem um menino tipicamente cearense, criado no interior, que, de repente, vem para a capital e, nela, descobre-se capaz de sonhos e realizar objetivos. Este era Cléber Aquino que se tornou administrador, professor e consultor de empresas. Cléber faleceu na última sexta-feira, 02 de abril de 2010, em sua residência de Fortaleza. Ele se dividia, há mais de 40 anos, entre São Paulo e o Ceará. Morreu como gostaria, lendo. Um fulminante infarto o levou, manhã cedo, logo após pronunciar: Ana Maria. Cléber, nascido em Maracanaú, formou-se pela então Escola de Administração do Ceará, hoje curso da Universidade Estadual do Ceará-Uece e, em seguida, foi para São Paulo onde concluiu mestrado e doutorado na USP-Universidade de São Paulo, da qual se tornou professor. Era casado com a Sra. Ana Maria Cavalcante Aquino e realizava há mais de 20 anos, entre outros projetos, o Programa História Empresarial Vivida. Esse programa consistia em uma reunião mensal na hora do café da manhã, onde convidados de múltiplas profissões e atividades afins ouviam palestras de autoridades, professores, empresários e intelectuais, quase sempre de São Paulo. Após as palestras, eram realizados debates. Tudo era gravado, transcrito e entregue em apostila na próxima palestra. Por outro lado, Cléber Aquino reuniu, em livros, vários depoimentos de empresários paulistas e cearenses que, no seu pensar, mereciam contar suas histórias pessoais e profissionais, de superação e sucesso. Rigoroso, quanto a horários, Cléber, viajado e interlocutor de grandes dirigentes de empresas, mantinha uma relação peculiar com a classe empresarial. Asseverava que os empresários deveriam ter melhor formação acadêmica, muita leitura, cultura, e saber de artes, preparar a sucessão, visão estratégica do mundo e ética em negócios. Era polêmico, dogmático e poderia até ser em alguns momentos, em sentido lato, rabugento. Todos os nomes de destaque empresarial do Ceará, desde os anos 80, participaram, pelo menos alguma vez, dos seus célebres cafés da manhã, que se iniciavam regulamente às 7.30 horas e culminavam com a entrega compulsória de livros para leitura, escolhidos pela sua ótica acadêmica e vivencial. Cléber nutria admiração por muitos empresários, mas era contundente e ferino em seus juízos críticos com alguns. Usava três ou mais canetas de cor no bolso da camisa para anotar ou grifar o que lhe agradava ou não em livros, jornais ou revistas, que sempre portava. Falava da “burguesia” empresarial de sua terra que adorava coluna social, mas, paradoxalmente, virou verbete no último bienal “Sociedade Cearense”, de Lúcio Brasileiro. O Ceará perde um de seus filhos ilustres e Maracanaú recebeu, de volta, o seu corpo eternizado que, por sinal, deu muito trabalho para se adequar ao exíguo espaço do jazigo onde já repousava sua mãe no velho e simples cemitério São José. Ele, tal qual o santo protetor do Ceará, não teve descendentes. Caía a noite, quando uma laje de concreto solveu o problema. Familiares, poucos amigos e jovens seguidores de Cléber acompanhavam Ana Maria a rezar um Pai Nosso. Uma vazia roda gigante de um mambembe parque de diversões, do outro lado da rua, permanecia inerte. Afinal, era noite de lua cheia na Sexta Feira da Paixão.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/04/2010.

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