Onde andava a minha razão na tarde do domingo passado? Quantas pegadas de paixão medravam este coração acelerado? Como fugir do frêmito das torcidas, se tive a coragem de usar o controle remoto e, em minha oca, vi a TV a conspurcar o silêncio. Iria participar de emoções explícitas em faixas, xingamentos e as dúvidas que precedem o apito final. Foi assim que passei os noventa e tantos minutos, intercalados por comerciais a determinar a volta ao espetáculo, o segundo tempo. A memória teimava em “flashback”, como se fora um filme ao contrário. Rebobinava imagens do fim da infância e o despertar da puberdade. Estava no antigo PV, no Benfica, a sofrer em outras finais de campeonato. O Fortaleza vencia, quase sempre. O pixote aguentava nesse par de horas as idas e vindas da vândala bola, ora triste, ora temeroso e de coração acelerado. Para, em seguida, a alegria incontida transformar-se em grito com o traspasse da vândala pelo complexo caminho das traves e receber o beijo das redes. Essas que não têm time e torcem sempre contra os goleiros, caras solitários que, de repente, se assustam com o que pegam, espalmam ou falham. Chorava de alegria e via, ao lado, o também meninote e amigo Ruver Herculano enxugando as suas. Ruver é hoje medico e avô, mas creio ainda perder a razão pela paixão que nos torna patéticos na beira da noite quando o apito final brinda uma facção com a vitória e uma taça de lata passa a ser beijada por jogadores suarentos que, eventualmente, jogam pelo nosso time. E o pior, amigos, é que no último domingo o apito final não era o fim. Havia uma questão em jogo. Era preciso decidir nos penais, os antigos pênaltis, quem sairia de lá com o galardão da vitória e qual o time que, sorrateiro, desceria primeiro o caminho lúgubre do vestiário do desencanto. Minutos não passavam, no troca-troca de goleiros e cobradores. E deu Fortaleza, com a ajuda da trave e das mãos de um goleiro hábil que flertara com as redes às suas costas. A razão pedia calma, a paixão reclamava seu quinhão e o futebol perdeu a tela para a voz chata e as breguices do Faustão. Liguei: D. Margarida, vencemos. Ela, aos 91: eu vi tudo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/2010

