Retorno de um enterro: “vaidade das vaidades, e tudo é vaidade”, diz o Eclesiastes. Existem vaidosos para tudo. Imagine o mundo da absoluta vaidade ou futilidade. Não há limites para ele. Agora, o Brasil já pode se considerar integrado ao primeiro mundo. Foi aberta, em SP, a filial da ”Quintessencially”, empresa que tem como lema entregar “qualquer coisa que o dinheiro possa comprar”. Será que essa empresa pode entregar uma medula nova para um tetraplégico? Ou o remédio para a cura do Alzheimer? Como dizia Louis-Ferdinand Céline, escritor francês, morto em 1961, “não existe vaidade inteligente”. E o pior é que alguns paulistas já se afiliaram a essa doidice. Um dos ditos cujos estuda a possibilidade de gastar R$ 1,3 milhões para trazer a “Lady Gaga” (quem é ela mesmo?) para uma festa “privê”. Privativa é coisa de gentinha. Pois bem, a colunista social Mônica Bérgamo, da Folha de SP, em 09 deste maio, faz um “test drive”, com endinheirados, de um colar que custa R$1 milhão, ou como ela diz “o preço de três apartamentos de dois quartos em Perdizes ou 24 carros C3 da Citroën”. Lá pelas tantas, uma dondoca indagada se o compraria e usaria, disse: “Usaria com um longo. Cag… do de medo, com três seguranças”. Pela linguagem, se vê que perua rima com mundo da rua. Sabe-se que colunistas sociais dão “corda” para que algumas pessoas se soltem e paguem micos. Uns, apresentam-se em fotos com sobretudos em plena primavera europeia. Alguns acreditam que conhecem vinhos. Faça uma prova cega, a da garrafa sem rótulo. A maioria não diz sequer a uva, quanto mais a marca. Bobagem pura. Outros imaginam que conhecem, por exemplo, Nova Iorque, e nunca saíram dos limites do distrito de Manhattam onde ruas e avenidas são numeradas. Saíram sim, mas não sabem sequer que o Aeroporto JFK fica no Queens. Como dizia Machado, no seu romance “Quincas Borba”: “pensa que fez grande coisa quem a faz pela primeira vez”. Nós todos pensamos que somos isso e aquilo, mas, no duro, somos apenas o que todos os do mundo são, almas em trânsito por esta fugidia vida neste planeta que, com certeza, não guardará lembrança do que tivemos ou portamos. Quiçá, do que fizemos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/05/2010

