O CAOS URBANO DAS CIDADES BRASILEIRAS – Jornal O Estado

Nós, os que moramos nas grandes cidades brasileiras estamos nos neurotizando pelo tempo perdido a cada dia com engarrafamentos, deficiência e morosidade dos transportes coletivos, invasão crescente dos “flanelinhas”, camelôs e distribuidores de panfletos nos cruzamentos. Há a mera e lucrativa implantação de equipamentos eletrônicos para multar, e quase nenhuma solução para a mobilidade urbana. Vou procurar, neste aligeirado escrito, lançar algumas questões, todas em aberto. Tudo faz crer que prevalece o que foi chamado ainda nos anos setenta pelo Prof. Lúcio Kowarick como a “lógica da desordem”. Seria uma variação da Lei da Entropia que derruba o pressuposto de que a evolução da ciência e da tecnologia geram um mundo mais ordenado. Quem ganha com isso? As cidades brasileiras precisam, urgentemente, de arquitetos com nova visão urbanística e de políticos que saibam ver o caos do presente e pensar, com coerência e sonho, o futuro. Advogo que o urbanismo, especialidade da arquitetura, deve ser visto e complementado de forma mais abrangente por sociólogos, demógrafos, geógrafos, economistas, ecologistas, advogados, administradores, engenheiros etc. O urbanismo não é um mero conjunto de traçados, ações ou de palavras técnicas bonitas, ditas à exaustão, mas, quase sempre, com discutível conteúdo. Ele é algo profundamente complexo que precisa de criatividade, conteúdo, organicidade e objetividade. Dá pena ver o que as cidades brasileiras sofrem com a perda de suas identidades. Em 2008, o famoso arquiteto americano, de origem chinesa, Chien Chung Pei, ao participar no Brasil do seminário Arquictetour disse que as cidades brasileiras não só precisam criar ou melhorar suas infraestruturas para atrair o turismo, mas devem descobrir um ícone, seja cultural, social ou arquitetônico que as represente. As cidades carecem de identidades, não podem ser meras cópias de outras. Por outro lado, o arquiteto Sylvio Barros Sawaya, da USP, acredita que o mero tombamento “de um edifício por seu valor histórico e deixá-lo impróprio ao uso é resultado de crendice temerosa e idolatria deslocada”. O inquestionável caos das cidades causado pela democratização da aquisição financiada de carros e motos é fruto, inconteste, da inexistência de um planejamento urbano que priorizasse o transporte coletivo de massa. Em pesquisa, tomando como base o ano de 2005, do EnvironMentality –Imae, publicado no caderno Mobilidade Urbana, do jornal Valor, de 16.05.2010, verifica-se que o percentual de pessoas transportadas, no Brasil, por veículos em trilhos (trens/metrôs) corresponde apenas a 3% dos passageiros. 26% andam de ônibus, 27% usam carros, 2% viajam em motos e, pasmem, 42% anda a pé. É claro que de 2005 para cá aumentou o número de bicicletas, carros e motos em circulação. A interligação por modais (trens e ônibus) ainda é muito precária. Quase não existem garagens ou estacionamentos públicos e, em algumas cidades, os edifícios-garagem são até coibidos. É comum, por exemplo, que ônibus e camionetas – piratas ou não – de cidades metropolitanas invadam, sem pudor e sem sanções, o já conturbado e diminuto espaço das vias urbanas das capitais. Como no Brasil de hoje só se pensa, além da política, em dois eventos grandiosos, a Copa de Futebol de 2014 e as Olimpíadas de 2016, é urgente criar para as populações e turistas soluções viárias mais simples e menos onerosas, como a da cidade de Curitiba onde o urbanista Jaime Lerner inventou um rápido sistema de transportes públicos, com calhas próprias, desde os anos setenta. É bom lembrar o que dizia o escritor italiano Ítalo Calvino, “as cidades, como os sonhos, são feitos de desejos e medos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/05/2010

Sem categoria