É NAMORO? NÃO É NAMORO? – Jornal O Estado

Namorados precisam de data? Ou tudo é decorrente da tal da mão invisível idealizada por Adam Smith? Será? Abro os olhos e vejo as íris resistentes a me mostrarem o espelho fronteiriço. Na constatação do tempo percorrido vem a pergunta sorrateira: qual a razão da data? Lembram-se do falado na frase inicial? Agora, é ir procurando o caminho dessa estrada enevoada onde a proa e a popa do barco da vida escondem navegantes à procura de respostas à indagação fundamental: o que represento para você se não tenho remos? Cada par de pernas escolhe as hipóteses do trajeto e, se encontram outras duas pelo caminho e formam quatro no mesmo diapasão, há o que comemorar. O namoro é quando a fulgor acende, nunca quando mitiga. É quando há emoções e se escreve, de novo, uma história de todos conhecida, mas própria, pessoal e intransferível. Há namoro se as mãos se deparam como astros absortos, envolvidas pelo calor dos suores trocados a cada suspiro. Namoros não têm prazo de validade. Têm marca de identidade, de sutilezas percebidas pelas celebrações dos corpos, nos registros da bênção aspergida pelo encontro. É namoro quando se sonha junto, quando se descobre o abismo e uma ponte salvadora emerge do nada. É namoro quando há pensamento insone, quando a lanterna da esperança permanece azeitada e o fulgor do encontro é maior que as adversidades do dia-a-dia. É namoro se alma e corpo estão no mesmo tempo do verbo, se sei que não sabes que sei, mas desejo que saibas. É namoro quando imaginas ser criança e o jardim da infância não mais existe. Não é namoro quando as mágoas amadurecem e se transformam em ódio. Não é namoro quando se contam os minutos do encontro e se reza para tudo ter fim. Não é namoro se há interesse e não achas a pessoa interessante. Não é namoro se precisas da inteligência para dirigir o tempo. Não é namoro quando mede frases. Namoro é perdição de tempo no encontro sem horas. É namoro quando não há parcimônia, tampouco cerimônia. É namoro quando não há autoridade, mas afeição e identidade. Há namoro quando não se comanda, mas se anda, passo a passo, sem deixar rastro de desencanto. É namoro quando o outro não é um meio, tampouco fim, é sempre um vir-a-ser. É namoro quando os sussurros abafam gritos e quando os dias têm mais cores embora as horas e os astros sejam os mesmos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/06/2010.

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