BRUNO, HEPTANETO – Diário do Nordeste

É março, cedo da noite, estaciono o carro sobre o asfalto, dou boa noite, passo o portão, entro no elevador e subo quarenta metros. Toco a campainha, ouço vozes, alegro-me, desde já, com a graça da criança no berço esplendido da simplicidade. “Seja feita a luz e a luz se fez”. Beijo-o com carinho e sou advertido. Devo me conter. Deixe para depois, pai. E assim fiz. Esperei meses, quase coincidindo a data com o aniversário da mãe, quinta comemorado, para anunciar: sou hepta. Sem essa de futebol e copa. Estou louvando a chegada do meu heptaneto. Nada de penta ou hexa, sou heptavô. Luana foi a primeira e Bruno é o sétimo neto. Filho da terceira filha que havia me dado o penta. Chegou a alegria na noite molhada pela brisa marinha alforjando pedras protetoras na curva da avenida. Veio sem muitos choros e dengues, pleno de promessas na pele macia como avelã, clara como a esperança de bons tempos, envolto nos panos da benquerença. Bruno foi apresentado pelos pais para a alegria e deleite de tios, primas e avós, olhando-o com a ternura só concebida pelo amor. Vejo, agora, meses depois, o registro do seu nascimento e lembro do dito pelo escritor russo Antonin Tchekhov: “nas certidões de nascimento escreve-se onde e quando um homem vem ao mundo, mas não se especifica o motivo e o objetivo”. Caro Tcherkhov, o motivo da vinda do Bruno foi o desejo de um casal em tê-lo como filho não com objetivo definido, preciso, matemático. O objetivo é sutil, tênue e arriscado como todo projeto de vida, mas forte como a perseverança e a fé. Vem com o selo do afeto. Não é produto para ter selo de qualidade do InMetro, é gente, fruto da clarividência de seus pais, quilates acima de egoísmos e apegos. Vem para ser irmão de Nicolas, risonho, brincalhão, galhofeiro, contando números, lendo letras e já contando muito para todos nós, os vindos antes a este mundo de tantos ais. O saúdo, Bruno, com a liberdade concedida pela maturidade, essa a não apagar caminhos limpos, pois se alegra deles. O saúdo com a força deste ano 10, do século da maioridade brasileira, o 21, e o faço em nome dos que constam de seu sobrenome, regado por letras, lutas e lampejos de fraternidade. Deus o abençoe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/06/2010.

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