Escrevo na quinta. Confesso, não vi nada de excepcional nesta Copa. Tudo igual. Parece jogo eletrônico. A única novidade é o país África do Sul, mesmo desclassificado no futebol, estar sendo desvendado. Gente alegre, cores, dores, problemas e anseios. Não sem quem é o jogador Felipe Melo, com nome de tenista. Procuro a razão do mau humor do Dunga, a ganhar milhões e recrutar uma legião estrangeira sem grande amor à pátria, dizem alguns. São garotos-propaganda de tudo e qualquer coisa. Lamento não entender a razão de jogadores brasileiros usarem brilhantes em suas orelhas. Só se for para afirmar: fiquei rico. Algumas cadeias de televisão estão cheias do dinheiro de anunciantes bilionários, ávidos pela imagem de cada atleta ou seleção. A maioria dos patrocinadores é multinacional e trabalha por pesquisa e números. Pátria é coisa do passado. O mundo deles é o dos interesses. Dos 23 atletas brasileiros, só três jogam no Brasil. O resto joga e desfila em festas e aeroportos da Europa e, quando chegam, são, via de regra, acompanhados de louras siliconadas em pagodes patrocinados por cervejarias. Confesso ter saudades de Tostão, com sua lucidez e talento. Confesso não ter saudade de Zico, com seu azar. Revelo estar impressionado por Pelé ser ainda um dos maiores faturamentos em publicidade. Não vejo ou ouço o Galvão Bueno. Não consigo entender a não convocação de Ronaldinho, o gaúcho, tantas glórias e gols. Juro não saber quanto é a gratificação pelo título. Repórteres dizem que centenas de pessoas viajaram por conta dos cofres da viúva e do futebol brasileiro. Esse mesmo futebol a dever horrores à previdência social, sonegar imposto de renda e dar cobertura e visibilidade a personalidades toscas. Admito não saber bem quem é Ramires e tampouco em que posição joga. Falem-me, por favor, de Thiago Silva. Esta conversa não é ranzinza, é fruto do desapontamento lúcido pela consciência da pura mercantilização do esporte. Depois, virá a Copa de 2014, “a nossa”. O que menos importará será o futebol. Bilhões ficarão nas mãos das mesmas empresas, especializadas em tudo, acopladas ao poder, quaisquer que sejam os eleitos, tais carrapatos em gado mal cuidado.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/06/2010.

