DROGAS E VIAGENS – Diário do Nordeste

O Conselho Federal de Medicina parece não estar contente com a relação de alguns médicos e a indústria farmacêutica. Pausa. Alguns médicos, quase sempre, para cuidar ou se livrar do paciente, prescrevem exames e drogas. Não se fala só dos males crônicos, mas de dor de cabeça que muda para cefaleia, e lá vai a receita. Dor de garganta e tome anti-inflamatório ou antibiótico. Acabou a pausa. E, dizem, o fazem entre intervalos de viagem ao exterior para congressos, acompanhar pesquisas de desenvolvimento com novas drogas ou constatar o êxito de outras, já em uso por indústrias multinacionais, sempre generosas em convites para viagens a lugares charmosos, com passagem, hotel, inscrição, ajuda de custo, em eventos de cunho científico. Agora, o dito Conselho e a Associação Médica Brasileira estão querendo mudar o rumo dessa prosa e preservar o Código de Ética Médica. Só permitirão a relação médico/laboratório em congressos médicos. E se o(a) doutor(a) tiver trabalho a apresentar. Não os “posters”, aligeirados com estudantes ou residentes, mas os de verdadeira contribuição científica por sua inovação, casuística etc. Essa relação de alguns médicos, quase velada, não é do conhecimento da maioria da clientela e do público. Pensam os pacientes que os médicos sempre viajam para se atualizar. Será? As queixas e controvérsias nessa estória são grandes e as indústrias farmacêuticas estão medindo força com as entidades médicas e, quiçá, o Ministério da Saúde coloque o seu estetoscópio para ouvir os sons dissonantes dessa caixa de pandora. A grande imprensa, a viver de anunciantes, tem sido quase omissa nessa questão. Os anúncios devem valer mais que o esclarecimento público. Apenas a Folha de São Paulo começou no dia 30 de junho passado, a desvendar essa relação próxima e perigosa. Para engrossar o caldo dessa estória, entre sístoles e diástoles, as indústrias farmacêuticas investem agora nos chamados de “medicamentos maduros”, entre outros, os não mais protegidos por patentes. Assim, vão reforçar a propaganda de drogas para hipertensão, diabetes, disfunção erétil etc. Para concluir: você sabe qual o remédio mais vendido no país? O dorflex. Brasileiro adora se automedicar

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/07/2010.

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