Em determinado dia do meado de 2002 recebo telefonema da Embaixadora do México no Brasil, Cecília Soto. Queria localizar o ex-ministro Ciro Gomes e pedia minha ajuda. Assim o fiz. Tratava-se de convite para encontro reservado, dia seguinte, em Brasília, com o então Chanceler ou Ministro das Relações Exteriores – como se diz aqui – do México, Jorge Castañeda, que tem “expertise” em História da América Latina, sendo professor universitário nos Estados Unidos, mestre em economia pela Universidade de Princeton e doutoramento em História Econômica, na França. Aquela época, a famosa cantora mexicana Gloria Trevi estava presa na Polícia Federal em Brasília e isso causava certo desconforto pelo assédio da imprensa à Embaixada para obter pronunciamento, o que não era o caso, pois se tratava de problema entre polícia e artista. No dia seguinte, já em Brasília, vi que preexistia amizade entre o Chanceler Jorge Castañeda e o ex-ministro Ciro Gomes. Sedimentada, quem sabe, conversas outras ao tempo em que Ciro
Gomes estivera na Universidade de Harvard. O fato é que, ao meu juízo, pareceu se consolidar ali núcleo de pensamento político singular para dar melhor destino ao futuro da nossa parte na América Latina. Logo depois, 2003, Jorge Castañeda deixa as Relações Exteriores e, ano seguinte, se candidata, sem êxito, à presidência do México. Não por coincidência, Ciro também se candidatara a presidente do Brasil, em 1998 e 2002. Agora, neste fim de julho de 2010, Jorge Castañeda está no Brasil, a convite do “Fronteiras do Pensamento”, movimento internacional para estudar as mudanças do século XXI, através de seminários, estudos e conferências, da “Casa do Saber”, entidade brasileira promotora de debates e círculos de estudos e do jornal Folha de São Paulo, divulgando tudo. Castañeda, em longa entrevista, fez elogios à política interna de Lula, mas teceu críticas ao manejo da política externa do Governo Federal. Segundo o publicado na dita Folha, 26.07.2010, Castañeda disse: “Tudo o que Lula tentou fazer fora do âmbito interno só resultou em fracassos. Mas creio que mais importante é o fato de que Lula se absteve em mediar ou resolver conflitos perto do Brasil”. E disse mais: “Conflitos próximos abundam, e o Brasil não exerceu nenhuma liderança nesses casos”. O ora narrado é para mostrar que o Brasil, segundo Castañeda, poderia ter exercido outro papel na liderança regional se Ciro houvesse persistido e sido eleito. Lula, se ouvido ou consultado, poderia repetir a frase do Rei Juan Carlos disse para Hugo Chávez: “Por que não te calas?”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/07/2010.

