APRENDIZADO DE PAI – Jornal O Estado

Tentei aprender a ser pai na estrada da vida. Não havia livro que ensinasse nada. O máximo era o “Livro do Bebê”, do Dr. Rinaldo de Lamare. Perdemos o primeiro filho, pouco antes de nascer, em um acidente. Estava no Rio, vim correndo e o levei ao cemitério. Depois, vieram as filhas, a quem amei desde sempre. A todas, levamos ao batismo, tomando parentes e amigos como padrinhos. Participei de todos os pré-natais, estive em todos os partos, até vi. Fui aos maternais para as primeiras aulas, ficando atrás de paredes para que não me flagrassem por lá. Permaneci uma semana com cortinas fechadas em Belo Horizonte cuidando de filha operada.
Sofri sozinho, a invasão de minha casa por desvairado que levou, por horas, uma filha como se fosse moeda de troca. Horas infinitas. Tudo terminou bem. Descumpri sinais de trânsito, após uma filha cair de ponta-cabeça até chegar, cantando pneu e esbaforido, ao hospital. Bati palmas e fotos em festas aniversárias e em festivais de ballet de todas elas. Mandei gradear piscina enquanto contratava professor de natação. Briguei com pediatras para serem atendidas com presteza. Procurei saber de colégios, professores, métodos de ensino, cursos de idiomas e quem eram suas companhias.
Desci serra, interrompendo fim de semana, por conta de braço quebrado de filha. E, foi assim, passo a passo, em compasso ou descompasso, em dupla ou à capela. Era apenas um menino-homem que abria, por outro lado, o duro, difuso e desigual combate da vida profissional independente, sem patrão e padrinho, pois fora essa a minha opção. Montei uma empresa apenas com o nome, sem capital e precisava cuidar dela. Isso, entretanto, nunca me impediu de tomar café, almoçar e jantar em casa.
Todos os fins-de-semana eram da família e, para isso, procurei uma casa em praia ainda deserta povoada de amigos com seus filhos, colegas de classe de minhas filhas. Sem saber muito de como conduzir a linguagem e relacionamento entre adulto e criança, criei uma estória que durou anos. Ela tinha duas personagens, Rosinha e Paulinho, através dos quais procurava passar o que acreditava ser exemplo, ensinamento e alegria. Paulinho e Rosinha eram bons filhos e alunos. Tantas foram as vezes em que chegávamos a um local e o Paulinho e a Rosinha haviam acabado de sair. Brincamos em festas, carnavais infantis e em clube.
O tempo ia passando. Levei-as à Disneyworld como processo de crescimento e não de deslumbramento. Tomávamos banhos à beira-mar deserta, enquanto o “Buggy” se quedava próximo para passeios relaxantes. E havia esportes em casa, mais de um. Depois, viajamos, aqui e alhures. E, uma a uma, foram se pondo moças, algumas atônitas com mudanças as tornando distintas do que eram. E houve crise, Deus sabe.
Procurei entender, auscultar e fazer o possível. E descobri ser a adolescência feminina mais complexa que imaginava. Chorei trancado em banheiro por não entender e descobrir a razão. Por outro lado, fui fustigado anos a fio por concorrência articulada, sem dó e piedade, tentando me alijar do que fazia. Era luta solitária, incompreendida e indormida. Veio a idade de estudarem fora do país e me vi levando-as para casa de irmãos habitantes da América, não sem antes conhecer escola, falar com a direção e deixar tudo acertado. Choros e crises. Foi mais uma luta, telefonemas longos, mas terminaram – e bem – os cursos. Ao trazê-las de volta, camioneta cheia de malas e quinquilharias. E assim foram todas.
Depois, vieram namoros, rompimentos, reatamentos, conclusões de cursos universitários, casamentos festivos, netos acolhidos com sentimentos e escritos. De repente, me dei conta, não fazia mais parte do time, havia recebido cartão vermelho, por faltas cometidas e a vida doía. Tornei-me mero provedor, “outsider” e descobri-me desaprendiz de pai.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/08/2010.

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