Estamos, eu e Auto Filho, secretário da Cultura do Ceará, a tomar café. A ideia é se montar um arcabouço, diagrama ou projeto do que possa vir a ser um Anuário da Cultura do Estado. Essa é a ideia ampliada do que venho tentando no âmbito da Academia Fortalezense de Letras e de Fortaleza. Tenho falado e escrito ser oportuno identificar os agentes da cultura, independente de serem membros ou não de universidades, instituições ou academias.
Sendo Auto, por natureza, filósofo e polêmico, há muito a discutir antes de se tornar prática e objetiva, como é do meu jeito, essa conjunção de pensamentos. O primeiro acerto foi a escolha da Linguista Karine David, para gerir a ideia, ela que foi a curadora da última Bienal Internacional do Livro do Ceará. Faço fé no projeto. Depois, ele me pede, de bate – pronto para definir o que é um escritor. É provável que Michel Foucault, nos dê uma pista no seu texto “O que é um Autor?”. Segundo ele, “a noção de autor constitui o momento forte da individualização na história das ideias, dos conhecimentos, das literaturas, nas histórias da filosofia também e na das ciências”.
Cada autor tenta mostrar seu deslumbramento ou sua veracidade no arranjo da obra, tornando-a singular, fazendo-a, com competência ou não, merecedora de maior ou menor grau de confiabilidade e importância. Diria que o escritor não é um excêntrico, tampouco deve possuir qualidades incomuns, apenas faz da escrita um ofício. Como esse ofício não é por muitos entendido, poucos são os escritores que vivem da composição. Escrever requer sentimento maior que lucidez e lógica. É materialização do desejo, do pensar, do devir e das angústias ou sonhos, expressadas em diferentes estilos e gêneros, pedindo maturação ou urgência. Ou, como fala F. Dürrenmatt: “Escrever é um processo. Ou infinitamente veloz, ou infinitamente lento”.
Escrevinhador semanal, ainda não provado em texto de longo curso, quedo-me restrito ao tempo e ao espaço que me concedem, sabedor dos limites de toques, somo palavras e tento, de alguma forma, trazer o leitor até o ponto final. Esse ponto que nos liberta, aprova ou condena.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/2010

