Você poderá ver, de graça, nesta semana da Pátria, na Galeria Benficarte, a mostra “Dos pés à cabeça”. Nessa exposição, a face histórica do Brasil é mostrada. Ela começa no princípio do Século XIX. Nada da face vivida tristemente na Copa do Mundo da África do Sul, meses atrás, em que os pés dos atletas faziam – ou não – a glória da história do esporte de cada país e mexiam com as nossas cabeças. O que está posto é o nascimento da Nação brasileira, surgida, na verdade, com a forçada vinda da família real portuguesa, em 1808. Enxotados de Lisboa pela fúria expansionista do Imperador francês Napoleão Bonaparte, que visava o bloqueio continental, a Corte portuguesa veio, pressurosa, abrigar-se na ainda pacata cidade do Rio de Janeiro. O Rio os recebeu com atenção, mas não havia aonde alojar tanta gente. O que se fez? Os portugueses foram ocupando o que de melhor existia em imóveis na cidade, ainda sem esgotos e acanhada.
A vinda da Corte foi o estopim involuntário de toda a fermentação política germinada na cabeça dos brasileiros que culminou com a eclosão da Independência, em São Paulo, em 07 de setembro de 1822. D. Pedro I, que acabara de ingressar na maçonaria, rebelou-se contra a pátria-mãe. É isso o que mostramos nessa breve montagem histórica, de forma simples e didática. Germinava, a partir do Grito do Ypiranga, o sentimento nacional ainda em construção, dia a dia, por todos os brasileiros.
“Dos pés à cabeça” é um chamamento à razão. É tentativa de mostrar a todos a história que se edifica com o trabalho, a dignidade de viver, a capacidade de aceitar as adversidades naturais ou criadas por terceiros e dizer que a solução dos problemas brasileiros passa pelo uso da razão, a cabeça. Não as cabeças que só pensam no seu entorno, na sua grei. Pelo questionamento dos que nos é imposto de todas as formas e mídias, pelo comprometimento pessoal com o que acontece no Brasil de hoje. Somos todos, mesmo sem querer, dependentes das ações dos outros. Por esta razão, insistimos: esqueçam um pouco os pés. Não chutem. Usem a cabeça. É independência ou morte.
João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/09/2010.

