TOLERÂNCIA E CONVIVÊNCIA – Jornal O Estado

Tão logo aprendemos a falar é-nos ensinado pelos pais o quão importante é saber conviver. Respeitar os mais velhos, evitar brigas com as “pestinhas” dos irmãos que temos; aguentar desaforos na escola, ouvir que nós não correspondemos ao esforço, ao sacrifício e à dedicação de anos e anos, faz parte do aprendizado de convivência da infância e juventude. Conviver bem significa ser tolerante. É importante não esquecer que para ser tolerante é preciso determinar o que é intolerável. Conviver é estabelecer limites e saber que a partir daquele ponto nós estamos perdendo a liberdade de ser gente, de caminhar com os próprios pés e assumir os defeitos em toda plenitude. Ser livre é aceitar-se. Aceitar os outros, tudo bem, mas até aquele ponto em que você ainda tem coragem de se olhar no espelho. A convivência mansa e pacífica é o ideal a ser perseguido por pessoas, famílias, instituições e nações. Enquanto isso, as diferenças inerentes aos seres humanos colocam farofa no ventilador e produzem estilhaços em estruturas aparentemente blindadas. Os pais, os amigos, os esposos, os filhos e a sociedade são todos agentes cobradores de comportamentos tão puros quanto irreais. Cobram o que não oferecem em contrapartida, por não saberem ou não terem como.
Fiquemos nos pais. Há pais que se imaginam senhores dos destinos de seus filhos e não sabem que a rebeldia, o ranço e até o enfrentamento inconsequente são meras ações libertárias.
Os pais imaginam ser, na maioria dos casos, supridores das necessidades de seus filhos.
O grande problema é que as pessoas não vivem para as suas necessidades e sim para os seus desejos. Os desejos fazem as pessoas ser livres da ditadura do afeto que nos chantageia com a oferta do necessário. Parece que foi Shakespeare quem disse que “o homem é um ser complexo” e é essa complexidade que move o mundo. São os diferentes, os que saem do quadrado, da mesmice e fogem ao combinado pela mediocridade dos usos e costumes de sua época que constituíram e constituem a vanguarda do mundo.
Ser pessoa é admitir o desejo de ter uma individualidade, um misto de solidão que nos distingue até dos irmãos e uma solidariedade que esbarra na liberdade do próximo. Todo sofrimento não deixa de ser uma ação pedagógica, uma forma de aprendizado e de purgação. O sofrimento que nos impomos em não aceitar a tutela da ditadura do afeto é um ato que nos engrandece e nos toma livres.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/12/2010.

Sem categoria