É DIA DA MULHER? – Diário do Nordeste

Há algumas mulheres que consideram estranho e discriminatório este Dia da Mulher, hoje comemorado. Falam que, em tempos de hoje, todos os dias são dos seres, humanos e animais. Há, entretanto, outras que acham pouco um só dia para reverenciar as mulheres. O fato é que hoje é o seu dia e, no meu olhar, não devem ser homenageadas apenas pelo gênero, mas por seus feitos na família, sua inclusão na cultura, no trabalho, na ciência, na história, na política e na certeza que é a incerteza que preside o viver. No Gênese, livro do Antigo Testamento, I, 27, está escrito: “E Deus criou o homem à sua imagem; fê-lo à imagem de Deus; e criou-os macho e fêmea”. Ainda no Antigo Testamento, II, 18, está dito: “Não é bom que o homem esteja só; façamo-lhe uma ajudante semelhante a ele”. Hoje, a linguagem seria outra. Não seria dito “criou o homem”, mas a espécie humana. Também não seria dito: “uma ajudante”, mas uma companheira. Eu diria mais, homens e mulheres devem ser compartes, isto é, devem compartilhar tudo, direitos e responsabilidades. Sem essa de provedor e tampouco de coitadinha. Neste mundo em que se luta pelo fim da submissão – de todas as formas – é importante que ambos participem igualmente dos esforços para a construção da vida em comum. No Talmude, Kiddushim, 49, livro religioso hebraico, está dito: “Dez medidas de palavras desceram a este mundo; as mulheres pegaram nove, e os homens, uma”. É tempo, pois, de falarmos em quantidades iguais de palavras e conteúdo, responsabilidades e direitos, com perspectivas semelhantes, sem ademanes e fricotes. Nietzche, na sua forma niilista de ser, escrevia em Zaratustra que “para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho”. Não deve se pensar mais desse modo, filhos têm pais, mãe e pai, e é um desserviço ao filho afastá-lo do pai, sob o manto de protegê-lo e amá-lo desmesuradamente. Para louvar a mulher neste dia é preciso estar consciente de que vivemos outros tempos, em que mulheres e homens devem estar independentes para serem altivos, mas harmônicos, para que possam coexistir com recato, compaixão e amor. Como dizia Simone de Beauvoir: Nenhuma mulher nasce mulher: torna-se”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/03/2009.

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