Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns, fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito, mas só 67% obtém os benefícios da previdência social. E desses, 54% ganham só um salário mínimo. A média de renda dos que se retiram é de 778 reais. Esses dados e, muitos outros, foram fruto de pesquisa Datafolha, em novembro de 2008. 61% já sofreram cirurgias e 82% tomam remédios, sendo, pela ordem, as maiores queixas: dores musculares, pressão alta, reumatismo, colesterol alto, problemas cardiovasculares, osteoporose, diabetes, doenças respiratórias e sinusite. Findo o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser re-instigada para o hoje com a leitura de jornal, revista e livro. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca.
João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/03/2009.

