PESSOA E MULTIDÃO – Diário do Nordeste

Estive a ler artigo de Maria Rita Kehl, psicanalista, com o nome de “A era das multidões”. Nesse trabalho, ela cita a obra do
francês Gustave Le Bon (1842-1931), especialmente o livro “Psicologia das Multidões”, analisando o comportamento de massas formadas por pessoas heterogêneas que, em determinado tempo ou circunstância, passam a ter uma conduta uníssona. Seria, por exemplo, o caso dos seguidores de líderes, sejam democratas, ditadores, chefes de Estado, religiosos etc., a criar ou praticar determinadas teorias que, lato senso, nos levam até a cogitar não ficarem longe, nem muito diferente do procedimento das torcidas organizadas dos grandes times de futebol brasileiro e do mundo. Na África, na recente visita do Papa Bento XVI, três pessoas foram pisoteadas e mortas pela multidão. Vi, também pela TV, a luta entre a torcida do Santos e a Polícia Militar, ao final do jogo em que o Corinthians ganhou por 1X0. Naquele instante, a massa santista, revoltada com a derrota, descarregou sua frustração em qualquer coisa ou pessoa que encontrou pela frente. A Polícia, acuada, passou a reagir por espasmos, sem comando racional. O que se seguiu foram cenas de selvageria, de parte a parte. É lúcido admitir que cada uma dessas pessoas não fosse, necessariamente, delinquente. Mas, quando, estimulados, açodados e liderados em grupo, praticam atos inconscientes e/ou de violência sem nenhuma restrição moral. Coloquei, a propósito, a data da morte de Le Bon (1931), para dizer que o comportamento das multidões só tem piorado, desde então. Freud, também citado, escreveu, em 1920, o livro “Psicologia das Massas e a Análise do Eu”, em que fala, não de forma romântica, sobre a “alma coletiva”, inspirado no que pensava Le Bon. Seria, talvez, lícito admitir que, em todos os tempos, surgem líderes que, por prestígio, carisma ou hipnose, conseguem levar multidões para situações-limites, sem que a maioria se aperceba disso. Foi aí que lembrei, por exemplo, de grandes líderes recentes de multidões. Uns para o bem. Outros, nem tanto. Seriam os casos de Hitler, Mussolini, Ghandi, Mandela, Fidel, João XXIII, Luther King, Bin-Laden, Chavéz, Lula e Obama. Concorda?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/03/2009.

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