MACHADO JÁ DIZIA – Diário do Nordeste

Estou passando dois anos como presidente de uma academia de letras. A festa de posse foi bonita. Discursos feitos, inclusive promessas. Depois, vem a realidade nua e crua do dia-a-dia. A academia tem despesas a pagar, sessões a cumprir, revistas e livros a publicar, realizar concursos literários oferecendo prêmios, mas falta dinheiro, a vil moeda que não frequenta as arcas da maioria das academias. A primeira ideia é procurar Mecenas. Alguém que tem dinheiro e pode dar um pouco do que lhe sobra. Hoje, o dinheiro escasseia. Os tempos, parcos. E os verdadeiros Mecenas, raros. Outra ideia é procurar as leis de incentivo cultural, quer no Município, Estado ou União. Aí entram um cipoal de certidões, documentos, reuniões, estudos, projetos, contador a fazer balanço e demonstrações financeiras. O que era letra vira número. Os projetos demoram a ser feitos, analisados burocraticamente, os agentes públicos que os liberam têm cargos de confiança e, vez por outra, são mudados. Aí tudo recomeça. Por outro lado, como acadêmicos são vitalícios e imortais, alguns não se sentem motivados a comparecer às sessões. Cada reunião é precedida de correspondência, e-mails e telefonemas. Mesmo assim, o comparecimento é baixo. É há imprevistos como afazeres, doenças, viagens, e há a falta de segurança pública à noite no centro da cidade. O que é verdade. Soube que Machado de Assis, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, agradecia quando a presença atingia a dois dígitos. Como se sabe, dois dígitos se contam a partir do numeral 10. É preciso esclarecer que as academias seguem o modelo da Academia Francesa e tem 40 membros. Ora, se dez comparecem, só 25% da sua força vital está presente. Mesmo assim, é um feito. Este relato é para mostrar aos leitores, à sociedade e às autoridades públicas que as academias precisam ser vistas não como uma reunião de pessoas excêntricas que adoram ler livros, falar, escrever em prosa e versos e, na sua maioria, tem cãs. As academias, apesar de todos esses problemas, são fontes geradoras de saber continuado e sem elas o mundo ficaria mais pobre, pois amar a leitura e a cultura é fugir de uma cegueira existencial.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/04/2009.

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