DILMA E O LINFOMA – Diário do Nordeste

“O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro
Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Rousseff, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”. Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí? Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. Ela fará quimioterapia para exorcizar o mal que pode voltar e usará o protocolo C-Chop, o “premium” em hematologia e precisará de boa cabeça. O seu jeito mineiro dá a sensação de que é forte ou se faz forte. Pode ter chorado, antes ou depois, são franciscos de lágrimas, mas soube se comportar com altivez defronte de jornalistas que não gostam de notícias boas. Certamente, às noites, na solidão do leito, meditará sobre a recorrente indagação: “por que comigo e logo agora?” Há um provérbio árabe que diz: “Deus não completa nada para ninguém”. Passado o susto, poderá vencer a batalha e isso a transformará, quer queira ou não, em alguém mais humana e ciente da sua finitude. Certa de que, desta vez, está do outro lado, contra uma guerrilha cujos passos podem ser seguidos. Voltará a ser militante em sua defesa, com as armas da Ciência, que não tem partido, mas atira certo e é trabalhadora. Saúde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2009

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