Há uma ilação entre o Dia das Mães e a pieguice. Agora, nestes tempos, não há como ser piegas. A mãe não é mais a mulher com 30 dias de resguardo, e se contentando em procriar, fiar e cuidar da casa. A mãe de hoje é alguém preocupada com os filhos colocados no mundo. Ciosa de suas crias trabalha tal qual o companheiro e acompanha o desenvolvimento dos filhos. Procura entender suas angústias, carências e dificuldades em obter êxito profissional. No tempo restante, cuida de si e de sua vida afetiva. A história do Dia das Mães remonta à mitologia grega e passa por Rhea, mãe dos Deuses, em nome de quem era celebrada festa na entrada da primavera. Séculos se passaram até a Inglaterra, século XVII, antes da Revolução Industrial, quando todos trabalhavam sete dias por semana. Concedia-se, então, às operárias britânicas uma folga dominical, no quarto domingo da Quaresma, para ficarem em casa com suas mães ou seus filhos. Esse dia, chamado de “mothering day”, a celebração com um bolo da mãe, o “mothering cake”, para torna-lo mais festivo. Pulamos para o século XX e estamos nos Estados Unidos com a tristeza de Ana Jarvis, moradora da Virgínia Ocidental, ao perder sua mãe, em 1905, e cair em depressão. As amigas inventaram, para alegrá-la, uma festa para homenagear a sua mãe. Refeita do mal passageiro, Ana resolveu estender a todas as mães a festa preparada para a sua. E usava o cravo branco como o símbolo da maternidade. Assim, passou a lutar pela instituição oficial do Dia das Mães, conseguido em 1910, em seu Estado, e em 1914, por ato do presidente Woodrow Wilson, foi definido segundo domingo de maio como a data oficial nacional. O estranho nessa história: Ana Jarvis nunca conseguiu ser mãe. O cravo virou travo. No Brasil, em 1932, o presidente Vargas instituiu a mesma data móvel para celebrar a mãe. Hoje, não se louva mais a mãe pela simples maternidade, mas pelo êxito na criação de seus filhos: prepará-los para o mundo com dificuldades e ameaças reais como drogas, estudos, competitividade, desemprego, sexualidade solta e casamentos descartáveis. Mãe é ofício perene de difícil aprendizado na pele da vida.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/05/2009.

