Não considero salutar o uso de revistas, televisões, rádios, cadernos e suplementos de jornais, sejam de cultura, entretenimento, arte ou sociedade, para enfocar, com destaque exagerado, figuras estranhas ao nosso meio social e à área de influência do veículo. Um exemplo: o simples fato de o cantor e compositor Bob Dylan ter lançado um CD foi objeto de notícias em TV, artigos e páginas de jornal. Ora, há tanto a divulgar sobre artistas locais, regionais e nacionais. Acho despropósito o verboso incenso ou confete em artista internacional sem nada a ver com a nossa cultura. Nada contra o cantor e compositor Bob Dylan, mas a favor de quem não tem espaço na mídia. “Deu no New York Times” é uma expressão a dizer: o fato – ou a pessoa – é tão importante ou raro a merecer a citação naquele jornal nova-iorquino. Sendo o fato importante ou raro é justo se louvar alguém de fora, mas usar isso como rotina ou como pretensa demonstração de inserção na cultural internacional é bobagem. A reciprocidade não é verdadeira: os jornais, redes de TV, bienais de cultura e arte, ignoram, quase sempre, nossos valores da cultura e da arte. Nós todos, brasileiros, devemos acabar com o provincianismo no endeusamento de mediocridades, efemeramente pululando no ‘show business’ internacional, na cultura e artes e recebidos ou citados como semideuses. Há ainda os casos de palestrantes econômicos – nada sabiam sobre a crise- a tentar explicá-la e autores de livros de autoajuda prometendo isso e aquilo, mas produzindo mediocridades travestidas de falsa cultura e farta propaganda. Existe cultura verdadeira e arte em nossa terra. Há múltiplos valores precisando ser reconhecidos pela mídia, produtores culturais, editores, curadores de bienais. Não têm espaço para suas obras de arte e livros com real densidade acadêmica, cultural ou artístico. Nenhum País, Estado ou cidade se torna importante culturalmente e nas artes com bajulação a estranhos ao seu meio. Nada de xenofobia. Deseja-se apenas sair desse endeusamento bobo a nos tornar ridículos aos próprios olhos dos incensados. Certamente, lá em seus íntimos, pensarão: qual a razão de esse povo estranho me ver assim?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/05/2009.

