FILGUEIRAS LIMA: BALADA DO CENTENÁRIO – Jornal O Estado

Ontem, 21, Antônio Filgueiras Lima, com a alma certamente genuflexa na eternidade, completou 100 anos. O marido de D. Amazônia, o pai de Ruy, Antônio e José aliava a sensibilidade de poeta à devoção do educador que formava pessoas para a vida. Em 1959, quando Filgueiras Lima completava 50 anos, recebi de suas mãos uma folha de papel, de razoável gramatura, que continha o poema Balada do Cinquentão: “Fatiguei-me tanto, amada/Viajei cinquenta léguas/por essa sinuosa estrada/ que toda, a pé, percorri/dentro d’alma fatigada/dos tesouros que juntei/ não resta nada? a saudade/ de tudo quanto gozei/de tudo quanto sofri/dos beijos que te ofertei/ dos vento que te devi/de um rio que atravessei/ inda criança e… perdi/claro sino que escutei/na cidade em que nasci/ doces rimas que rimei/quando menino – e esqueci/ das gerações que eduquei/pelas quais tanta lutei/ e das quais tanto aprendi/dos tempos da mocidade/ambiciosa, em que sorri/embalado na esperança/ de um bem que nunca se alcança/de um futuro que… não vi/ oh! futuro! espelho mágico/ montanhas de ouro, brilhantes/ as rosas caem do céu/abre-se o mar em corais/ tudo um sonho evanescente/ hoje só tenho passado/ hoje só tenho presente/ mais passado que presente/ futuro não tenho mais”. Esse poema é uma espécie de autobiografia/testamento literário e revela haver em Filgueiras Lima uma quase premonição de sua prematura e inesperada morte, quatro anos depois. Nesse intervalo de tempo é que fui seu aluno na Escola de Administração, tendo sido distinguido por ele como Monitor de sua cadeira. Via-o chegar, sempre bem composto, de terno e gravata, com uma leve fragrância de colônia, a ministrar suas aulas quando, por vezes, o poeta falava mais alto e saia do script do conteúdo programático. Esse homem, que veio dos confins das Lavras da Mangabeira, batizado pelas águas do Rio Salgado, aqui se fez poeta e educador verdadeiro. Cavalheiro por excelência, tinha tamanha ligação com os estudantes que foi o autor da letra do Hino do Estudante – cuja música é de Silva Novo – em que dá uma última e ainda atual lição aos jovens que hoje frequentam os bancos escolares deste Brasil, ainda esperança: “É chegado o momento da luta/ mocidade vibrante e viril/ este brado de angústia se escuta/vinde, jovens, salvar o Brasil”. Salve Filgueiras Lima, vate do ensino.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/05/2009.

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