AUGUSTO. PONTES PARA O SABER – Jornal O Estado

Nossa relação com Augusto Pontes remonta aos anos 60. Nessa época, Barros Pinho, Josino Lobo e eu éramos alunos da iniciante Escola de Administração. Por sermos tidos, dentre outros, como líderes, fazíamos política universitária, não só por ideologia, mas para consolidar a difícil institucionalização da Escola de Administração, então agregada ao Estado do Ceará. Pois bem, Augusto era estudante/político ou político/estudante, fazia Filosofia meio sem concluir o curso. Estava em quase todas as reuniões e assembleias de centros acadêmicos da antiga União Estadual dos Estudantes – que congregava os universitários – e do Diretório Central dos Estudantes, que tinha assento no Conselho Universitário. Descobrimos, desde cedo, que Augusto era um exímio pensador e isso já ficara comprovado na sua relação de trabalho com Barroso Damasceno, na Caba Publicidade. Sabia fazer graça dos infortúnios comuns aos seres humanos, especialmente nossos que lutávamos de forma quixotesca por melhores dias para a Universidade e para o Brasil. Não vou repetir o que já foi dito à exaustão pelos que deram depoimentos quando da sua morte, há duas semanas. Na noite de seu velório, ouvia o lamento sentido de sua filha Natércia ao pé de seu esquife. Acheguei-me e contei para ela que no dia 01 de abril de 1964, ainda sem saber bem o que estava acontecendo, o Augusto me pediu para deixá-lo lá para os lados da Parquelândia. Claro que topei, mas ele, por precaução, solicitou ir no bagageiro do carro. E assim fomos. Depois, foi para a Brasília, onde ensinou, e de lá voltou e continuou a trabalhar em publicidade como homem de ideias. Um dia, Ciro Gomes, seu amigo, é eleito governador e Augusto assume a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Ciro, na sua forma inteligente e ferina de aferir pessoas descobrira a grande cabeça que repousava sobre os ombros do Augusto. E lá se foi ele viver assim por dois anos como um secretário diferenciado. Deu a sua quota. Jogou o paletó fora e foi viver como gostava ou podia. Agora, estamos na última década do século passado, no Clube do Bode e o Augusto intercala chistes com cerveja e cochilos programados. Foi lá onde se comemorou, já em 2005, o seu aniversário de 70 anos. Festa grande organizada por Sérgio Braga, registrada em ata por Audifax Rios, discursos, músicas, mesas muitas e amigos, parceiros e companheiros de todos os tempos, matizes e gêneros. Depois, aderiu a outro grupo nosso, também pseudo-anárquico: a Sexta Literária ou Cesta Literária que se reúne às sextas-feiras à tarde em távola redonda. Pelo que sei, foram nessas duas agremiações etílico-culturais as últimas aparições públicas do Augusto, solitário comunicativo, que tinha, parafraseando W. Irving, escritor americano, mente e fala como ferramentas aguçadas que melhoravam com o uso constante. Na manhã de sábado em que foi sepultado no São João Batista batia um sol de verão brabo em pleno tempo de chuvas, as galhas das árvores da alameda central não recebiam o açoite do vento e mais de uma centena de amigos esteve lá, de forma contrita. Cada um tinha a sua estória pessoal com o Augusto e o silêncio só era interrompido pelo choro comovido das filhas. Augusto. Pontes para o saber.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/05/2009.

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