VÔO NOTURNO – Diário do Nordeste

Por duas vezes passei situações de risco em voos. Vou contar uma: foi de Portugal para o Brasil. O avião decolou à noite, serviram o jantar e me acomodei para dormir com máscara sobre os olhos. Cochilei. Depois, recebi um cutucão. Era o vizinho de poltrona, um português de olhos arregalados a dizer sem meias palavras: Tu sabes que vamos morrer? Procurei acordar de todo e ele me apontou o motor parado, ao lado. Já todas as luzes da cabine estavam acesas e havia um corre-corre de comissários a verificar cintos e que tais. De repente, o comandante do avião se identifica pelo microfone e diz para permanecermos sentados e obedecer a instruções dadas a seguir. Aí, o comissário chefe pede para todos tirarem cintos, óculos, sapatos, objetos pontiagudos, mostra coletes salva-vidas etc. Estamos em noite escura sobre o Atlântico. A Europa ficou para trás. Procuro na mente as aulas de geografia e vejo só existir alternativa em África, nas ilhas de Cabo Verde ou Canárias. O resto é oceano profundo. Meia hora se passa e o comandante volta dizendo: vai voar baixo para liberar combustível, ficar mais leve e seguirá para as Ilhas das Canárias. O avião inclina a sua proa e vai baixando de forma lenta, quase imperceptível. Começa a operação de esvaziar tanques. Já faz uma hora do primeiro aviso, todos estão seguindo as ordens, calados, alguns rezam, outros choram baixinho. Repasso minha vida. Minutos duram horas, enfim o comandante volta a falar e diz estar pousando em Las Palmas, Grã Canária. O avião faz o turno de pista, desce suavemente, enquanto ambulâncias e carros de bombeiros nos acompanham, lado a lado. Todos estavam aliviados. Foram longos e duros 90 minutos e 03 dias de espera por uma nova turbina Rolls-Royce vinda da Inglaterra. Lembrei disso por conta da tragédia do AirBus da Air France. Eles só tiveram 04 minutos e um fim trágico. O Criador os acolha. Lembrei também do escritor francês Antoine Exupéry, autor, entre outros, de Vôo Noturno e piloto pioneiro a trazer o correio da França para a América do Sul. Morreu, em acidente aéreo, no mar da Sardenha. Fica apenas o consolo de Caymmi: “é doce morrer no mar”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/06/2009

Sem categoria