MADRILENHAS – Diário do Nordeste

Dizia o pintor cearense Antônio Bandeira (Fortaleza, 1922. Paris, 1967) sobre exposições: “Antes era preciso somente o ângulo visual para se olhar um quadro. Hoje necessitamos mais que isso. Queremos também o ângulo do sentimento. Buscamos os olhos não somente na cara, mas também no cérebro e no coração”. Para ver arte é preciso estar atento a todos os sentidos e emoção. Vando Figueirêdo é pintor inquieto. Não é aprendiz. Sabe e o faz em longo percurso. Teve a coragem de, já maduro, sair do casulo, atravessar mares e aportar na terra-mãe, Portugal. Depois, por sentimento atávico ou existencial, retornou. Vive procurando faces novas no imaginário de sua arte. Experimentado na lida contínua e árdua de assumir-se artista, vê sempre com olhos púberes (re)buscado em suas lentes intra-oculares. Agora, expõe estas ”Madrilhenhas” na cidade. O título é o ponto de vista do autor. É o conjunto de obras que teria exposto em Madri, Espanha, se a saudade ou a vida não empurrasse sua nau pictórica de volta aos mares turbulentos e difíceis do Brasil. Neste ano nove deste Século XXI, do Iphone, Google etc ele mergulha a seu modo, com matizes e materiais contemporâneos, por vieses onde usa até palavras. Transfigura a rudeza primitiva de contornos rupestres e outros arranjos para amigos e apreciadores da arte. As razões destas Madrilhenhas podem e devem ter algoritmos e significações. Os olhares de colegas, marchands e visitantes terão múltiplas interpretações. Dizia Benedetto Croce, filósofo italiano, morto em 1952: “arte é visão ou intuição. O artista produz uma imagem ou um fantasma: e quem aprecia a arte volta a olhar para o ponto indicado pelo artista. Observa pela fenda aberta e reproduz dentro de si aquela imagem.” Ou no dizer do poeta americano Ezra Pound: “Toda arte começa na insatisfação física da solidão e da parcialidade”. Eugène. Delacroix, pintor francês do Século XIX, contava precisarem os pintores sempre borrar ou inutilizar o quadro para concluí-lo. Por fim, declaro não ser crítico de arte, mas saber que artistas são, geralmente, solitários e parciais, especialmente pela paixão devotada ao que criam.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/06/2009.

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