Um apresentador de televisão domingueira acaba de renovar seu contrato com uma rede nacional. Vai ganhar cinco milhões por mês, entre salário e merchandising. Ou seja, a propaganda, disfarçada ou não, em que aparece.
Então, alguns poderão perguntar: por que fazer vestibular, cursar cinco anos e depois ralar muito? Para que tanta gente se mata estudando para concursos? Para que muitos ficam pendurados em bancos, financeiras e afins? Dirão ainda: Entenda a razão pela qual médicos, engenheiros e advogados, as profissões antigas, ganham uma insignificância por mês. Vocês poderão pensar: isso é despeito, talento é assim, ganha milhões. Poderiam pensar ainda: vai lá e veja se faz o que ele faz?
Não se trata disso, o que nós, os mortais comuns, os sem talento, não entendemos é como um cristão fica duas ou três horas vendo e ouvindo alguém a dizer uma série interminável de bobagens, entrevistar pessoas que precisam estar no ar para aparecer, ouvir cantores de vozes esganiçadas, fazer um júri com aspirantes ou decadentes artistas e, no final do mês, levar cinco milhões. Ele tem público, se não gerasse receita seria despedido. Não sei qual o público que o assiste, se das classes A, B, C, D ou E? Aliás, pessoas não deveriam ser classificadas como se fossem produtos, mas quem fica ali postado vendo diatribes merece sofrer. Uma dica: faz muito tempo, surgiu o controle remoto, esse aparelho pequeno, movido a pilha, que tem o condão de nos libertar do que não podemos ou queremos ver e ouvir. Faça um bem a você mesmo. Higienize a sua mente. Leia jornal, livros e revistas. Ouça o silêncio. É bom. Pare de ver tolices.
Não só as do apresentador, mas outras em programas policiais, fofocas, shows de calouros, de realidades etc. Faça de sua televisão uma aliada. Desligue-a ou escolha. Mude, compare e acredite: há programas de bom gosto, populares e eruditos. A televisão nos põe a prova, mas a escolha é nossa. Se, ao final de uma tarde de domingo, depois de almoço mais caprichado, aceitar alguém na tela é porque concorda com a presença em sua casa. Aí, quando isso acontece, não vale reclamar. Olhe para o espelho e veja quem pode ser o culpado.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/06/2009.

