Sou brasileiro, fui péssimo peladeiro e gosto de futebol. Torço, porém, de forma diferente. Tenho rasgos de paixão, mas a lucidez aparece, às vezes. Após o anúncio das cidades da Copa/14, comecei a ler a previsão de gastos. São bilhões para cada uma das 12 escolhidas. Boa parte será gasto na adequação ou construção de novos estádios e infraestruturas de acesso. Fiquemos, por exemplo, com Fortaleza. Já existe o Castelão, reformado há poucos anos. São previstos novos investimentos de 400 milhões de reais em sua modernização e acessos. A partir desse fato, lembrei-me do exemplo do Estádio Engenhão (João Havelange), no Rio de Janeiro, construído para o Pan Americano e hoje cedido ao Botafogo, por conta de seu alto custo de manutenção. O público virou privado, sem pagamento. Voltando ao Castelão: poderão serão realizados, acredita-se, até três jogos. Assim, tudo será consumido em 270 minutos, por brasileiros e estrangeiros. Terminada a Copa, o que será feito desse e outros estádios que preveem até cobertura contra a chuva? Estive ano passado na China e visitei, com vagar, o Estádio Ninho do Pássaro. Majestoso na arquitetura e simples na ambiência. Nele cabem 91 mil pessoas, campo, pistas de atletismo e base física, incluindo infraestrutura de 258 mil m2. Gastaram 500 milhões de dólares. Foi realizado concurso pela Prefeitura de Pequim e três escritórios de arquitetura da Suíça, Inglaterra e China venceram, em consórcio. Volto a Fortaleza: os dois maiores clubes locais sofrem na série B do futebol. Até junho de 2014, parte ínfima de recursos poderia ser destinada aos clubes, condicionada sua aplicação à modificação à capacitação da gestão, visão de futuro e, claro, da Federação de Futebol, que dizem ser obsoleta. Teríamos gerenciamento, atletas formados nas bases, com público ávido e permanente, se Fortaleza e Ceará alcançassem e permanecessem na Série A. Assim, poderíamos ter algum retorno. Não adianta preparar os locais da festa se não mudarmos os métodos. A maior obra não está no concreto, mas em raciocinar para o futuro e ver o esporte como estratégia para o desenvolvimento das doze cidades.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/06/2009.

