Rio. Estava lá e não se encontrava. Habituara-se a grupos pequenos. Muita gente não fascinava a seus olhos. Torcia o nó da gravata. O vozeio aumentando e o relógio de pé, antigo, marcava o tempo. Tinha o olhar da observação e captava descompassos sociais após cada chegada triunfal e a saudação aos próximos. Luzes havia e o calor das mãos não irmanava pessoas. Elas poderiam, sim, enaltecer o momento, descobrindo-se umas para as outras ou procurar o caminho da prosa factual. Mas eram estranhos entre si. Nem o aprumo na decoração e o ambiente iluminado e criativo, análogo a outros, eram admirados. Como deveriam ser por quem estava ali por motivações quaisquer. Apresentações e saudações feitas. Eram muitos os previstos e os inesperados, mas tudo correu no mundo da cortesia e civilidade a presidir encontro entre pessoas de falas e saberes variados, sem faltar o disse-me-disse costumeiro, de soslaio.
Uns ficaram próximos, outros distantes, mas isso sempre aconteceu, desde a Grécia antiga. Palavras amáveis foram trocadas, umas com alma, outras por arte. Houve até, imaginem, a invocação do Senhor em meio laico e todos se compraziam com o papel de ser ou eram apenas como os outros imaginavam que fossem. E a comida saborosa e benfazeja ia ocupando espaços em estômagos não tão prenhes de fome, mas as papilas gustativas desempenharam seus papéis e muitos pareciam estar em mesas formadas. E bebeu-se. Cada um a de sua preferência e vezes sem conta, pois conta não havia. E havia música, de múltiplas formas, ritmos e andamentos. E, na euforia, uns dançavam ao som que se transmudava em decibéis pedindo conversas em tom mais alto. E, vez por outra, pessoas se acercavam das mesas para falar sobre os seus pares e ímpares. Em fala natural ou estranha. Eram adventícios, a maioria. E havia risos, chistes, e o tempo fluía como se tivesse sido confinado pelo frescor da noite.
Sobremesas ricas e bebidas para paladares ávidos foram servidas com elegância para muitos que esqueceram o rumo de volta. E a narrativa se perdeu no sono da madrugada.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/07/2009.

