José Augusto Lopes é avis rara. Por ter sensibilidade acurada e notar, desde cedo, existir – quem sabe – uma carência no feedback relacional com a maioria das pessoas, tenha optado por entrar na viagem, sem volta, da descoberta do mundo cinematográfico. Esse mundo em que fotogramas em determinada velocidade se transformam em movimento contínuo gerando arte, a partir de uma história ou estória, misturando glamour, amor, mesmo que falso, ciúme, ódio, crime, paz e muito mais. Bem que fez Direito e Comunicação Social, aqui e alhures, mas era preciso mais, descobrir nos livros, revistas, conversas e, principalmente, no interior das salas semi-escurecidas de cinema, a sua essência humana. E aí sentiu a imanência da arte dos irmãos Lumiére. Abro os meus diários de anotações dos anos de 58 e 59, e revejo que Brasil se preparava para as eleições presidenciais do ano seguinte. Cai um avião da Vasp e morrem 42 pessoas. Discute-se a importância de comprar um porta-aviões, o Minas Gerais, o açude Orós está em construção, enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Eleazar de Carvalho apresenta o pianista Jacques Klein no José de Alencar. Outros tempos. O chique em Fortaleza era: e as badalações no Ideal, Maguary e Náutico, o San Pedro Hotel, os lanches do Tonny’s, a vitrina da Aba Film mostrando fotos das “moças de família”. As conversas eram feitas sem medo em 15.000 telefones pretos de galalite. O Theatro José de Alencar abrigava um festival de declamações de D. Violeta Modesto de Almeida, com o patrocínio das Damas de Jacarecanga. Os filmes mais significativos do ano eram Bela e Canalha, com Vittorio de Sicca e Sophia Lauren. Congotanga, dirigido por Joseph Pewney, com George Nader e Virginia Mayo. As sete filhas do Amor, com Maurice Chevalier. O Alucinado, com Arturo de Córdoba. Os Corruptos, dirigido por Fritz Lang, com Glenn Ford e Gloria Grahme. Blefando a morte com Antony Quinn e Kátia Jurado. O Fantasma do Gen. Custer (7ª. Cavallary) com Randolph Scott e Bárbara Hale. A Janela Indiscreta, de Hitchcock, com James Stewart e Grace Kelly. Foi nesse clima e tempo que José Augusto Lopes mergulhou no mundo do cinema e ainda navega. Todas as semanas mantém o olho nas telas, onde descobre não só o que diretores, atores, roteiristas, figurinistas aspiram mostrar, mas, por exemplo, vê os erros dos continuistas, a farsa de atores apaixonados por atrizes, mesmo que vivam realidades díspares. José Augusto poderia, quem sabe, ser comparado a um Rubem Ewald Filho pela capacidade de se empolgar, adorar ou criticar o que não aceita. Ele não é neutro, é o que escreve aos domingos no Diário do Nordeste. A Exposição no Benficarte foi a forma escolhida para mostrar ao público parte de sua intimidade, sejam pesquisas, manias, devaneios, fetiches e até glórias transformadas em troféus. O que está sendo exposto, de forma gratuita e aberta, é a parte visível de sua vida como comentarista de cinema. Algumas pessoas reagem com uma pergunta estranha quando se deparam com os “guardados” de alguém: Só isso?. Saibam, pois, que além do que é exposto com formas, matizes, desgastes do tempo, há um cuidado de quem coleciona, para desvendar o essencial. E o essencial varia para cada um. Esta é uma oportunidade para quem realmente gosta de cinema não apenas como diversão. Lembranças serão revividas. É uma trilha para os que estão começando a descobrir o que é cinema, como um filme é produzido, a fidelidade ou não do tema – baseado em enredo de um livro –, a capacidade cênica dos artistas, efeitos de som e luz, a diferença que faz um grande diretor, a publicidade gerada e a coerência ou disputa entre a crítica e o público. Enfim, é ver com os olhos este “making off “da alma e da razão de José Augusto Lopes que mistura o real e a fantasia e descobre que somos também aquilo que vemos, porque uma rosa não é meramente perfume. Há espinhos, à espreita. Viver entre espinhos e o néctar das rosas vermelhas ou brancas pode ter sido o paradoxo ou desafio da vida de José Augusto Lopes que está aqui, jovial no début de seus 70 anos, sabedor que pode voltar à tona, tirar o escafandro da reflexão, olhar para cima e ver estrelas no firmamento.
João Soares Neto é cinemeiro.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/08/2009.

