O AEROGERADOR E O RAIO – Jornal O Estado

Não se prova, tampouco se pode desmentir, a existência de Deus. Mas, a meu juízo primário e precário, Deus e a natureza são forças unidas. Tipo unha e cutícula. Sempre que ocorre uma catástrofe se fala da “ira de Deus”. O homem, por mais ciência que possua, não sabe explicar e tampouco evitar as consequências de alguns fenômenos da natureza, tais como ciclones, maremotos, erupções de vulcões, terremotos, raios e outros mais. Recentemente, vi uma manifestação forte da natureza. Um alto, esbelto e esteticamente equilibrado aerogerador parado. Um raio o atingiu, destruiu dois hélices, decepando-os e paralisando definitivamente o movimento. Venho, há algum tempo, lendo e procurando entender a ação dos aerogeradores. Já os vi na Europa, com destaque para a Espanha, na região montanhosa de Castilla, onde o escritor Miguel de Cervantes situou o seu épico D. Quixote. Lá, ainda parecem ser ouvidas, em meio ao vento monocórdio, as conversas havidas entre D.Quixote e o seu leal escudeiro Sancho. Hoje, aquela região está povoada de aerogeradores que também sussurram. Como ninguém é obrigado a saber o que é aerogerador, vou tentar explicar. O aerogerador consta de um alto poste que é a base de sustentação de um cata-vento. No alto desse poste é implantado um conjunto de três hélices captando ventos. Ele é usado para a transformação da ação dos ventos em energia elétrica através de um gerador acoplado. Deve ser instalado em lugares onde o vento sopra constantemente, mas mantendo uma cadência. Essa energia gerada é limpa, renovável e desejada, mas há queixas de que o zumbido constante dos hélices em movimento causa um desequilíbrio ao ouvido sutil de alguns animais e espantaria aves migratórias. Pelo sim, pelo não, constato que há hoje no Brasil milhares de aerogeradores espalhados, principalmente na zona costeira. O fato é que, após anos de refinamento de tecnologia, alguns aerogeradores ainda deixam de funcionar, sem prévio aviso. Não é raro ver-se aquele pirulito estático, com os três hélices sem nenhum movimento. O que não tinha visto era a reação da natureza sob o nome de raio fulminante. Veio certeiro à Ilha de Fernando de Noronha e tornou silente o apetrecho. Ainda permanece o escuro da sua descarga elétrica. Quem quiser ver é só conferir.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/09/2009.

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