TRÂNSITO BRASILEIRO – Diário do Nordeste

Estava a rodar, queimando combustível, poluindo o ar, procurando estacionar o carro. Só enxergava cones, correntes e ‘estacionamentos privativos’. Os cones de material plástico são hoje quase como escrituras públicas com registro de recuo usado para regular a parada de veículos. Basta comprar alguns cones e alguém se torna donatário da capitania da área pública, negando tudo o que diz o Código Nacional de Trânsito. É comum vê-los defronte a lojas, restaurantes, bancos e afins, sempre protegidos por seguranças, alguns cordiais, outros truculentos, a informar: não se pode parar, salvo se for cliente de quem lhe paga. Os sem guardiãs de seus cones usam correntes, apoiadas em pequenos postes de ferro – ajustados ao solo – trancados com cadeados e pequenas placas de ‘privativo’. A corrente só é aberta quando do horário comercial e, para os clientes. Ao fim do dia, volta a corrente. Se alguém encontrar, por milagre, uma vaga, logo se achegará uma pessoa, foreiro da dita cuja, um “flanelinha”, com colete, apito e pedaços de panos sujos a não limpar nada, apenas espalhando imundície nos vidros e pinturas dos carros. Encaram os “fregueses” como se prestassem relevante serviço público, ditando preços em função do carro, horário e mercado do dia. Há até os que levam pequenos papéis, como se fossem recibos do “serviço” e procuram receber adiantado, por garantia. A coisa não fica aí. Em quase todo semáforo com controle do tempo de tráfego há um grupo munido de garrafas plásticas, cheias de água com duvidosa procedência. Articulados com o “timing” da mudança do vermelho para verde, sem perguntar nada, molha o para-brisa do carro. E o “enxuga” com pequenos rodos que espalham o líquido por sobre os para-lamas. Mas, não fica só nisso. Há camelôs disso e daquilo, motoboys endiabrados, malabaristas, mendigos – verdadeiros e falsos – e, por fim, as zonas azuis, uma espécie de cobrança horária de IPTU do espaço público. Tudo isso para nós, os chamados, de dois em dois anos, a votar, obrigatoriamente, em candidatos que prometem tudo. Dá nisso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2009.

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