EUCLYDES, O HOMEM – Diário do Nordeste

Tenho procurado ler sobre Euclydes da Cunha(1866-1909). Não falo sobre o livro “Os sertões”, mas seu autor. Euclydes, com y – pois o alfabeto atual da língua brasileira assim o comporta – era tímido, muito tímido. Marco Antonio Villa, professor de História da Universidade Federal de São Carlos, é autor do livro “Canudos – O Povo da Terra”, tendo autoridade para descrever a personalidade do mais famoso representante da família Cunha. Cita o próprio Euclydes ao dizer que: “nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja”. Apesar disso, Villa o considera um homem de Estado, pois “toda a sua reflexão foi dirigida ao poder: em momento nenhum falou para o povo”. Uma semana antes de morrer teria dito para o cunhado: “Vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis… Tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas… Nunca se berrou tanta asneira sob o sol… Este país é organicamente instável”. Um amigo seu, Francisco Escobar, tentou sondá-lo para se candidatar a deputado. Euclydes respondeu: “Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer – para a qual não me preparei”. Vejam, tudo isso aconteceu na primeira década do século passado. Há exatos cem anos. Euclydes, entretanto, se beneficiou da frouxidão moral da política. Conseguiu ser nomeado professor do Colégio Pedro II, que era à época o Ginásio Nacional, graças à interferência de grupo de amigos que pediu a sua nomeação a Afonso Pena, o presidente (1902-1906) da época, em detrimento de Raimundo de Farias Brito(1862-1917), o grande e esquecido filósofo cearense, que havia tirado o primeiro lugar( Euclydes foi o segundo colocado) no concurso público para ensinar Lógica. Assim, uma coisa era o que via e pensava, outra a que vivia. Mas, como dizia minha avó Luiza, a justiça divina se fez e Euclydes só conseguiu dar dez aulas, pois logo foi assassinado por Dilermando de Assis, aquele que viria a ser marido de sua viúva. Mas, isso é outra história.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/09/2009.

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