JUVENTUDE E FUTURO – Diário do Nordeste

Foi Simone de Beauvoir quem citou o jovem príncipe Sidarta, o futuro Buda, em livro escrito sobre a velhice. O fato: Sidarta saiu de seu palácio e viu, entre outras duas, uma figura alquebrada e sem rumo. Perguntou: quem é? Responderam-lhe: Um velho. Sidarta, ainda não Buda, voltou ao seu palácio. E teria cunhado a frase: “eu sou a morada da futura velhice”. Assim, o óbvio não é entendido pelos mais jovens a não admitir a velhice como futuro. Acreditam e pensam: esse tempo não chegará, e se chegar, os encontrará ativos, ocupando mentes com trabalho, família e cuidando dos corpos em academias, corridas e afins. Hoje, já se fala nos “novos velhos”. Novos velhos? Seriam eles os desafiadores do tempo como fator determinante, indo buscar em suas próprias vidas a energia para manter o alento de ser ativo e útil? Seriam os descobridores, por suas leituras e práticas pessoais, de caminhos definidos do bom uso do tempo extra conferido pela longevidade? Poderia ser uma nova geração de pessoas a admitir a possibilidade de diálogo com os dos olhares da indiferença? Seriam, talvez, os cheios de saúde, corpos hígidos, apesar das cãs? Ou o que seria essa safra de novos velhos? Seriam as mulheres a disfarçar o tempo com cirurgias reparadoras ou estéticas? Ou homens unidos a mulheres com a metade de suas idades? Ou vice-versa? Ainda é cedo para se definir essa geração chegada aos sessenta, apostando que, em se cuidando, terá qualidade de vida para mais 20 ou 30 anos. O fato real para a maior qualidade de vida na pessoa dessa faixa de idade é a saúde. E a saúde, salvo a hereditariedade, as surpresas dos males incuráveis, e as degenerativas, poderá ser relativamente preservada. Se a velhice vier comboiada da maturidade – a idade e a capacidade de ser maduro – o caminho não será uma estrada íngreme, um tsunami ou um abismo. Creio, mas não tenho certeza: os caminhos não são nunca iguais para ninguém. É preciso viver na esperança, na tentativa, mesclando menos erros e mais acertos. Resolvendo questões recorrentes, crendo no tempo com sua parábola a cumprir: o futuro da liberdade, a impermanência.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/10/2009.

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