Voltei. Passei oito anos relutando em ver “in loco”. Todos lembram daquela manhã de terça, 11 de setembro. Vimos tudo pela TV, até a exaustão. Atônito, minha reação imediata foi escrever onze contos e enfeixá-los em livro. Nesse livro (Sobre a Gênese e o Caos), tento explicar, na gênese, as razões motivadoras do atentado, as lições não aprendidas e até ouso escrever uma carta para Bush e Bin Laden. Na segunda parte, ficção absoluta, falo do drama pessoal de uma cleptomaníaca; do menino afegão treinado para o terrorismo; de um casal que se separa enquanto tudo explode; de um velho e cansado vigilante; do amor carnal entre zeladora e segurança; de sessão espírita; do primeiro dia de trabalho de um jovem executivo negro; do voo de um Boeing 767; dos sonhos da viúva de um bombeiro morto; do imigrante judeu e sua família; e dos terroristas em ação. Em minha imaginação, tudo parecia um filme e criei os detalhes de cada conto. Faltou, quem sabe, Spielberg ou um Fernando Meireles para a direção. O fato é: voltei lá na quinta-feira, 05, deste novembro. O “Ground Zero” estava cercado por tapumes. Era hora do almoço, os trabalhadores saíam com suas marmitas para a grade acolhedora do jardim fronteiriço da capela de St. Paul, ilesa no ataque. Aproveitei, meti a cabeça, e vi o grande vazio em que as duas gêmeas se transformaram. Ao fundo, a construção do memorial Torre da Liberdade e gruas espanando os céus. Naquele mesmo dia 05 e hora, em Fort Hood, Texas, eclodia atentado dentro de base militar. 13 pessoas morreram e outras ficaram feridas. Soube logo depois, também pela TV. Não havia como não ligar os dois fatos, especialmente se um dos suspeitos, embora major do exército americano, é de fé muçulmana. No dia seguinte, apanhei um táxi com motorista etíope. Conversamos sobre o ocorrido e perguntei sua opinião. Ele disse que não entendia a razão, pois tinha sido bem acolhido no seu novo país. O tratavam como igual e aquilo poderia ser um novo caos. Relembrei dos contos publicados e o que narro a vocês agora ainda me causa estranheza pela incapacidade coletiva de se descobrir o caminho da convivência humana sem guerra.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/11/2009.

