Entre as minhas múltiplas tarefas, há a de ser uma espécie de galerista. Não a de gestor ou curador de galeria de arte tradicional, mas a que abriga, em seu espaço simples, agradável e receptivo, a arte em todas as suas manifestações, sem pensar em pecúnia. Penso apenas estar sendo intuitivo e incentivador de quantos têm, ao longo dos últimos dez anos, procurado esse espaço gratuito -com público crescente – para expor seus quadros, instalações, esculturas, livros raros, poemas, mensagens de denúncia etc. Em cada exposição é deixado – sobre um púlpito – um livro em que todos podem se expressar livremente, assinar, fazer garatujas e exercer a crítica. Seria longo e cansativo falar dos dez anos. Foram muitas exposições, misturando principiantes, lutadores e consagrados. Atenho-me, aos dois últimos meses, como uma amostra aleatória. Começo com uma exposição de pinturas e objetos feitos por jovens infratores, apenados, e em processo de recuperação. É claro que não se descobriu nenhum gênio, mas permitiu-se a expressão artística e, quem sabe, primal de jovens na luta diária entre o delito e a arte, entre o caminho do trabalho difícil ou da droga fácil. A exposição foi aprovada e prorrogada. Depois, mudando de tom, foram expostos móveis franceses dos últimos séculos, e o público aderiu àquela vaga e aproveitou para fazer observações no tal livro, inclusive com brincadeiras e sonhos de aquisição. Agora, fim de novembro, em parceria com o Departamento de Ciências da Informação/Biblioteconomia da UFC, são mostradas “As gerações invisíveis da cidade informacional”. Vítimas da intolerância por serem “diferentes” e não se enquadrarem no modelo cobrado pela sociedade. Essas gerações invisíveis não recebem sequer o olhar complacente de estranhos. Entre eles estão catadores de lixo, os sem teto, grupos de dança funk, surfistas, os “emos”, em trajes escuros, que ocupam uma rotunda da cidade. Nas fotografias denunciadoras e textos fortes, o visitante se depara com os “outros mundos” da cidade indiferente às suas presenças e expressões. Uma forma tão dura quanto o tratamento que recebem.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/11/2009.

