POLITICAMENTE CORRETO – Jornal O Estado

Está sendo discutida e criticada por muitos a expressão “politicamente correto”. Dizem os agora pragmáticos cientistas políticos, antropólogos, sociólogos e afins que se a ação é política não pode ser correta. A política tem vários componentes, mas nenhum deles prima pela correção. Maquiavel, já no século XVI, dá receita não correta: “Precisando um príncipe saber utilizar bem o animal, deve tomar como exemplo, a raposa e o leão; pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe se defender dos lobos. Deve, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos”. Política seria assim a arte de encantar serpentes e não desprezar variáveis desencontradas e antagônicas para ganhar e manter o poder que se quer ou tem. Acreditam os acadêmicos na mudança necessária para socialmente correto. Um fato pode ser socialmente correto, independente da política de qualquer natureza e dos que gerem a coisa pública. E por falar em coisa pública, lembrei da morte de Celso Pitta, ocorrida há duas semanas. Não se deve julgar os mortos, tampouco tripudiar sobre quem não pode mais se defender. Assim, relembro apenas que Celso Pitta, embora carioca, foi prefeito eleito com milhões de votos em São Paulo. Apoiado por Paulo Maluf, de quem fora empregado, derrotou Luiza Erundina (então PT) e José Serra. Foi exaltado, envaidecido e posteriormente crucificado, a começar pela ex-mulher com informações que o levaram a prisão e ao pôr-do-sol político. Aos 63, câncer propagado pelos infortúnios, teve apenas trinta pessoas em seu enterro. Muitos políticos, inclusive os do recente caso do Governo do Distrito Federal, e todos os ocupantes de funções públicas deveriam atentar ser a fama, como já se disse, uma sucessão de mal-entendidos. A história tem mostrado. Para isso é preciso ler o que Thomas Mann, esse alemão meio brasileiro, dizia em seus ‘Escritos autobiográficos’: “A glória em vida é algo problemático: é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela, muito menos estimular”. Na esteira da glória está a fama. E sobre ela, em seu “Purgatório”, Dante Alighieri falava no século XIV: “A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra”. Assim, a fama e a glória precisam de pressupostos, sem os quais serão sopros do vento. Sem essência e pressupostos verdadeiros, não há o politicamente correto ou o socialmente justo ou certo. As pessoas esquecem que são mortais, finitas. Por serem vaidosas e ambiciosas, se deixam levar por oportunidades, instantes, aparências, interesses e devaneios. Ao fim e ao cabo, descobrem que nada era tão importante e necessário.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/12/2009.

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