O que me chamou a atenção em Copenhague foram duas coisas distintas. Uma: 38% da população da cidade usa bicicleta como transporte. E o clima é frio, até na primavera. Há muitas e bem cuidadas ciclovias com raros cruzamentos. A outra: local de resistência à modernidade, a Christiania, comunidade baseada na filosofia hippie de “paz e amor”, instalada nos anos setenta em base militar abandonada. Hoje, definha, acreditando ainda que tendas de artesanato, cds alternativos, pinturas e músicas de artistas emergentes e, naturalmente, o consumo e venda de drogas proibidas, são meios naturais de vida para os que não aceitam a competição desenfreada como “leit-motif”. Nessa cidade, neste invernoso início de dezembro, estão reunidas milhares de pessoas, oficial ou voluntariamentepara a COP-15. Vão de governos às organizações sociais, de grupos multinacionais às instituições multilaterais, de seguranças aos ativistas. Só do Brasil estão, em Copenhague, cerca de mil pessoas. A maioria representa interesses públicos e privados na discussão sobre a possibilidade de redução dos gases-estufa no clima. Esse mal que, se não cuidado com tecnologia e dinheiro, continuará causando inundações como as do sul do país, as desta semana em São Paulo e os tsunamis, todos de triste memória. A estratégia da reunião oficial é dividida em três partes. Discussão com delegados dos países, análise preparatória por ministros e, ao final, o acerto ou desacerto ético-crono-financeiro com a criação -ou não- de Fundo Global pelos chefes de Estado. Há gente preocupada com os interesses que poderão colocar a perder essa oportunidade para a mudança: de hábitos individuais predatórios, de empresas poluidoras de cursos d’água, dizimadoras de florestas, produtoras de C02 e de cidades adensadas sem infraestrutura. Tudo, claro, a partir de governos que descumprem leis, não propiciam saneamento básico, moradas, empregos e aceitam os desmatamentos. Isso dá à crosta terrestre, que abriga nossos corpos, alimentos e casas, o direito de represália. O que vem da terra, a ela voltará, diz o Eclesiástico.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/12/2009.

