Estou voltando de um voo rasante e pude confirmar o que já havia constatado o “The New York Times”, em novembro passado. Hoje, nos Estados Unidos, entre os dez sobrenomes mais comuns, já há dois nomes hispânicos. Vocês sabem que houve uma guerra entre os Estados Unidos e o México entre os anos de 1846 e 48. Antes disso, o Texas já havia sido anexado à América em 1836. Depois, sem entrar no mérito, apenas citando o fato, durante dois anos, os Estados Unidos guerrearam contra o México e, através do Tratado de Guadalupe-Hidalgo, uma espécie de rendição, em 1848, os atuais estados do Texas, Novo México, Arizona e Califórnia passaram a fazer parte da nação americana.
A área desses estados é maior que a de muitos países europeus e sua grande fronteira com o México tem permitido, desde esse tempo, a imigração sazonal ou permanente de milhões de mexicanos, legais e “indocumentados”. São, na maioria, trabalhadores, temporários ou não, que, inicialmente, mourejavam nas grandes fazendas. Depois, nas indústrias que ali foram sendo instaladas. Hoje, começo de 2008, os Estados Unidos têm 300 milhões de pessoas. Desses, 44 milhões são latinos. A realidade nos mostra que a cultura americana não pode mais desconsiderar a força dessa latinidade espalhada da Califórnia, no Oeste, à Flórida, no sul. Os latinos têm identidade cultural própria que os leva, entre outras coisas, a preservar seus sobrenomes de origem, embora usem prenomes americanos. Assim é que García e Rodríguez estão entre os dez sobrenomes mais comuns nos Estados Unidos, segundo dados do último Senso. E, entre os 25 sobrenomes mais comuns, já há seis latinos. Esses fatos têm motivado escritores, sociólogos, filósofos, antropólogos e cineastas a discutirem sobre uma ‘nova América’, onde todos possam ter direitos, liberdade, igual oportunidade de trabalho e um sentimento de pertença, sem a formação de comunidades isoladas. Essa integração, tão sonhada, passará ainda pela vontade política e já se manifesta na eleição crescente de congressistas com sobrenomes latinos, mas, ciosos de sua cidadania americana.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/01/2008.

